PALAVRAS
Contos de uma flama infinita

domingo, setembro 08, 2002

6:37 da tarde.
Uma imagem está alterada


Os fragmentos da retina estão no chão. Estes olhos que sangram olham insistentemente para mim. Não gosto deles, metem-me medo. O que preciso fazer para eliná-los?

Diante do espelho não sou nada. Sou um reflexo da miséria, um esqueleto inumano e inodoro. Cheiraste o espelho?
Tem cheiro? Não, não tem.

Secretamente olhas para mim. Consegues realmente me ver? Sei. Não consegues. Quem consegue? Estou atrás das evidências. Embaixo, no fosso do vaso de flores.

Lady Marieta espera-me na estação e não tenho condições de buscá-la. Vá buscá-la para mim. Por favor. Espera-me durante dois anos. Ainda não consegui condução. Tire-me daqui. Desejo-te.

Quadros quebrados não movem paredes. Nelas estão calendários ilustrados com faces rosadas de crianças imperfeitas. Sempre só. Assim: alguém que olha com retinas sangrentas merece mais do que linhas inúteis. Merece morrer.


Julio Costello



2:08 da tarde.
Os Vampiros


Numa reclamava do jorro de sangue que saia do pescoço. Não entendia. Era bela a moça de sorriso sincero e latejante. Não olhe agora. Um ceifeiro corta caminho entre o trigal fugindo de um vampiro. Corre mais além, tropeça em turrão e agora nos apartamentos da vila mais fria, moradores afirmam ter vistos morcegos. Nos porões. As veias pulsavam forte. Para desespero dos famintos. Numa agonizava, perene, inútil gogolejar de palavras e de madrugada. Centenas de Mantras entoados em memória de um corpo no trigal. Finda a noite e o dia nasce. Perigo de menos. Numa acorda, sentido gelo correr nas veias. É fundamental a metáfora do tempo. Andando em círculos os animais chegaram até a floresta. Lobos entoaram seus louvores e o mundo brilhava. O ceifeiro estava morto. Centenas de desbravadores entrando no rio, centenas de enguias e suas descargas elétricas, afogamentos. Tudo isso Numa observava na obscuridade. É o fim, pensava. Agora que vida pedia, a vida lhe faltara. Ana, chega com o seu carro, venha me buscar, por que estou sentindo frio. Saudações. Numa.

Julio Costello

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Julio

Correio 2
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