PALAVRAS Contos de uma flama infinita |
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segunda-feira, agosto 19, 2002 9:34 da tarde. Jorge era um filho da puta. Todos sabiam que ele roubava, o que não era pouco. Cuidando das finanças da prefeitura desviava constantemente uma boa parcela para suas contas particulares. O que era impressionante era a maneira dele manter o prestígio: participava com honrarias das comemorações públicas, era convidado para todas as festas e tinha uma mulher generosa e desejada. O primeiro escândalo público foi o superfaturamento na compra de lâmpadas para iluminação da cidade na época do natal. Sua ação, mesmo tímida era (repito) conhecida de todos. O prefeito o alertava sobre uma possível denúncia por parte dos vereadores de oposição. Jorge não se importava, quanto mais roubava mais feliz e popular ficava. Eis que uma inesperada doença instala em seu corpo modificando a trajetória de nosso fraudador. Jorge está com lepra e sangra nos locais das chagas de Jesus. Talvez por providência divina são reprisadas as leis da antiga Mesopotâmia e suas mãos (símbolo inevitável do roubo) dilaceram-se necrosadas. A doença não o impede de continuar roubando: amarra lenços sobre os punhos e com cautela continua trabalhando. A princípio foi louvado por essa iniciativa, mas depois todos se afastaram com medo do contágio iminente. O expediente vazio, as repartições converteram suas admirações em asco. Depois de fraudar nas contas da educação (com o apoio irrestrito do prefeito), perde a mulher desejada e é proibido entrar na própria casa. O prefeito temendo uma greve geral ordena que a cabeça de Jorge seja raspada e que o trajem de roupas vermelhas para que seja reconhecido por todos - preocupação da saúde pública. Anda agora com dificuldades de consultar seu saldo no banco, e quando o faz tem uma terrível decepção, o dinheiro sumira da conta conjunta. O nariz desaba com uma gripe. As articulações, dolorosas, fazem-no gemer, sua derrocada está próxima. Os braços inutilizados são jogados no bueiro. Jorge perece ao meio dia de uma segunda feira de ócio e tédio. Hoje, sua trajetória inspira outros a lançarem-se à vida pública. Julio Costello |
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