PALAVRAS Contos de uma flama infinita |
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segunda-feira, julho 22, 2002 2:32 da tarde. Acordei no meio da noite com um barulho estranho. Pelas frestas da casa via lampejos, brilhos coloridos e o medo tomou-me de assalto. Estaria condenado a viver sempre debaixo das cobertas. Era o fim do mundo? Minha resistência a essa patética teoria apocalíptica ruíra-se ante a esse medo e esse barulho. É possível que eu estivesse diante do infortúnio e de tão abandonado, paranóico. Levantei-me, fui até a porta. Ao abri-la assustei-me. Tantos monstros ocupavam o meu quintal. As feras, as bestas, ruminantes, morcegos, eu mesmo, espelhos, brinquedos, páginas rasgadas. Ao perceberem minha presença, todos voltaram-se contra mim – falavam ao mesmo tempo. Uma música (a trilha sonora) estranha, com silêncios, metais aumentava a atmosfera desse meu terror exclusivo. Nunca poderia detê-los. Talvez fossem eu mesmo em vários momentos de minha vida. Talvez fossem amigos comemorando minha infelicidade e revisões que jamais eu quereria. Sentei-me numa cadeira. Minha varanda estava suja. Apenas duas criaturas se sentaram ao meu lado. Conversamos pouco. O suficiente para eu saber do que se tratava esse estranho despertar. Tão calmo quanto preocupado tentei sorrir. Não fui condescendente com o próximo a se sentar. Disse apenas que aproveitasse a festa e não se dirigisse a mim. Triste, esse ruminante chorou descompassado, como se fingisse, na ânsia de me comover. Eu estava duro, sem o menor sentimento. Depois que o medo passara, a única coisa que desejava era vê-los se retirarem da minha casa. Isso não aconteceu. Ainda estão aqui. Os fogos ainda soltos cintilam a atmosfera da minha casa. Espero pacientemente que saiam. Enquanto isso, carrego o meu revólver. Julio Costello domingo, julho 21, 2002 10:38 da manhã. Um inseto passeia pela feira livre tentando enconder-se das pisadelas dos transeuntes. Sua única esperança é ver Sandra popular, intervir e salvá-lo. Sente saudades do seu escritório e da arrogância da secretária que não gostava de trepar. Tudo o que queria era ser enclausurado no banheiro, masturbando-se freneticamente. Seu único álibi era a solidão. Todas as horas do dia lhe são cruéis, a começar pela manhã e o trauma habitual de acordar. Lembra-se da infância com pesar, e com muita vergonha. Não gosta muito de falar sobre o passado. E sobre o futuro? Também não. Gosta apenas de ruminar o presente, afinal de contas é um inseto. Já percebeu como o inseto só vive o presente - pensa sempre em se alimentar de criaturas minúsculas, vermes e subincetos. Uma vez perdeu-se lendo a Ilíada - era o carrapato do cavalo de Tróia. Criaturas celestiais Tenham piedade, esclareçam algo sobre o futuro do inseto Desse mundo cheio de pisadelas que o ameaça constantemente. Tragam-lhe a redenção, afinal somos todos iguais a ele Incertos no rumo, certos do labirinto. Julio Costello |
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