<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-3650930</id><updated>2011-04-21T15:07:05.465-07:00</updated><title type='text'>Literatura dos Solares Marxistas</title><subtitle type='html'>Comentários e sugestões,
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costello@bol.com.br</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://juliocostello.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://juliocostello.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Julio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13520190805812693988</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_Ad-Lcst6ziY/SZbk2p7UzBI/AAAAAAAAAAM/4bxgtbkSGB8/S220/faxul.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>35</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3650930.post-90095441</id><published>2003-03-03T21:30:00.000-08:00</published><updated>2003-03-03T21:35:24.000-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;center&gt;&lt;b&gt;Noturno, trivial passeio&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou no patamar esperando que minha namorada chegue. Não gosto dela tanto quanto gosto de mim. Suzana é o seu nome. Sei que está comigo porque tenho um belo carro, amigos influentes, casa e situação econômica confortáveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela é um tanto fútil. Gosta de olhares furtivos e sempre procura, ao seu redor, avistar alguém que possa me substituir. Alguém que valha o quanto pese. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Natália visita-me com freqüência, e de meus amores falo pouco. Tenho uma biografia sentimental bastante confusa - às vezes, escondido, ligo para Carmem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Carmem! Grito ao encontrá-la. Sinto uma felicidade um pouco fugaz, assim como um champanhe perde suas propriedades ao descanso olvidado - que, ao ser tragado, rememora o fel da situação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Carmem, Natália e Suzana. Três nomes que não trazem muita inspiração, nada mais que inúteis linhas perdidas na escuridão deste automóvel ou na luz que poderia suscitar felicidade se eu não tivesse tantos inimigos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3650930-90095441?l=juliocostello.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/90095441'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/90095441'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://juliocostello.blogspot.com/2003_03_02_archive.html#90095441' title=''/><author><name>Julio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13520190805812693988</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_Ad-Lcst6ziY/SZbk2p7UzBI/AAAAAAAAAAM/4bxgtbkSGB8/S220/faxul.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3650930.post-90095395</id><published>2003-03-03T21:29:00.000-08:00</published><updated>2003-03-03T21:39:33.000-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;center&gt;&lt;b&gt;Glori&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sandra, contenta-te com o pouco que Deus oferece. Pensa que todo instante é único,&lt;br /&gt;necessitas da redenção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segue teu caminho procurando limpá-lo em todos os cantos. Partilha tua vida com marido e&lt;br /&gt;filhos... e, se não os possuir, encontre a caridade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sandra, escolha melhor conselheiro. Não seja tentada pelo infortúnio ou por mim.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3650930-90095395?l=juliocostello.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/90095395'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/90095395'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://juliocostello.blogspot.com/2003_03_02_archive.html#90095395' title=''/><author><name>Julio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13520190805812693988</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_Ad-Lcst6ziY/SZbk2p7UzBI/AAAAAAAAAAM/4bxgtbkSGB8/S220/faxul.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3650930.post-89284377</id><published>2003-02-17T20:35:00.000-08:00</published><updated>2003-02-17T20:38:56.000-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;center&gt;&lt;b&gt;A Janela&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;center&gt;&lt;b&gt;1. Fuga&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corria louco pelas ruas, vagabundo, a passos largos, fugitivos, desenfreados. Confundiam-no os cães, os sinais, obstáculos, o mundo, as pessoas, as pedras do passeio, os buracos. Os pássaros que esvoaçavam dolorosos, de telhado em telhado. O lixo, os detritos diários e inconsequentes da existência. Confundiam-no os prédios, as portas, as passadeiras, os tapetes, os elevadores, os polícias armados, as ambulâncias. Corria tresloucado pelas loucas avenidas, pelos becos sem saída, pelas vielas desumanas, pelas alamedas tão aqui e tão distantes. Achava e coleccionava estranheza em cada esquina. Guardava-a, secreta, no sarcófago do estômago. Carregava-a com ele, para toda a parte, por toda a lonjura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viajava delirante por uma cidade absurda, por uma vida absurda num mundo absurdo. Decalcava na pele os sorrisos, os olhares, as mãos suadas, os ódios e o frio das pessoas. Desenhava sorrisos falsos que colava aos lábios, que o protegiam, que desdenhavam do planeta inteiro, que ousavam fingir quando tudo fingia ser fingido. Disfarçava raivas com punhais no olhar, matava solidões com conversas banais, trespassava felicidades com pesadelos quotidianos, honrava o amor apaixonado-se por todos os vazios em simultâneo. Maltratava o desprezo com o cinismo ajoelhado dos servos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Procurava. Olhava. Buscava. Sintetizava cada segundo no seu milésimo e condensava, espremendo, o tempo no seu valor real: um sumo de instantes diluídos e de significado abstracto. Saltava de lugar em lugar, sem prestar atenção ao espaço, ao tempo, à chuva, aos equinócios ou às poças de lama. Nada lhe interessava. Um punhado de transeuntes: eis o que é o mundo. Procurava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;center&gt;&lt;b&gt;2. Procura&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De janela em janela, pela cidade das cores e dos cinzentos, pelas folhas outonais que mais pareciam eternas, pelas calçadas imundas e gastas. De rua em rua, pelos vazios já habituais, pelos destinos repetidos, pelos futuros previsíveis, pelas memórias insignificantes. De rosto em rosto, pelos olhares esgazeados, pelos lábios mortiços, pelas feições indecisas, pelas bocas sonoras, pelas mãos incapazes: procurava. Nos reflexos, nas pegadas, nos perfumes, nas palavras, nas imagens, nos nadas. Em toda a parte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;center&gt;&lt;b&gt;3. Tu&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A janela. Era uma janela que ele queria. Este louco fugitivo, escorregadio, difuso, distante, vagabundo, inodoro, incolor e invisível. Procurava uma janela na cidade. Uma qualquer, mas não uma qualquer. Qualquer uma que fosse a tua. Uma em que estivesses tu. Uma que te mostrasse, que te trouxesse, que te inventasse, que te oferecesse. Uma que provasse que existias. E procurava. Corria: fugindo e procurando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A fuga e a procura dos loucos não movem o mundo. Mas deixam-no inquieto. Este louco fugia e procurava. E eras tu quem ele procurava. Essa janela que talvez nem existisse. Essa silhueta que talvez nem fosses tu. Esse olhar que talvez nem fosse o teu. Essa hipótese inacabada, deslumbrada. Essa névoa persistente e teimosa que se lhe formara por sobre os dias. Todos os dias.&lt;br /&gt;A obsessão. A janela. Olhava todas as janelas em busca da tua. Olhava e buscava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;center&gt;&lt;b&gt;4. Janela&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa rua infinita, num dia esquecido. Talvez fosse outro, este planeta. Numa rua curvada escura. Numa noite imprevisível e escondida. A tua janela. A tua silhueta secreta recortando a luz modorrenta. O teu cabelo alongado e deslizante, preso por um gancho elegante. O teu rosto na sombra da noite, adivinhando-se belo.&lt;br /&gt;Presente: o que acontece agora: o louco abranda o passo. Olha fugidio a janela. Firma os pés com convicção, roda sobre si mesmo, num movimento demorado, quase lânguido. A rua é escura, a noite é fria. Tu não dás por ele. Ele encara-te. Vem despenteado, de olhos semicerrados, testando a veracidade de ti. Finges que não vês. Leva a mão ao bolso, retira de lá um maço de cigarros. Tu olha-lo. Acende um cigarro fixa-te. Distende, com suavidade, os lábios, num sorriso mordaz. Testa a tua lealdade. Provoca-te. Assustas-te. Reconhece-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esbugalhas os olhos num arrepio descuidado, amas por um instante, temes esse momento, recolhes-te, como uma aragem. Deixas ficar uma pontinha do olhar, tímida, espreitando-o. É tudo muito rápido. Tens medo. Finges. Falsificas os desejos, ignoras os sonhos, armas a guarda, ergues fortalezas, fechas a janela.&lt;br /&gt;Ele não te pode ver. Finges sentir-te segura.&lt;br /&gt;Mas ele pode imaginar-te. O louco fixa a janela, como se te visse ainda. Ele sabe. Sabe-te lá, por detrás da janela, encostada à portada, de frente para a escuridão da sala, de cabeça baixa, sem forças. Sabe-te erguendo, neste momento, o queixo. Sabe-te soltando um suspiro inventado de ponto final. Sabe-te engolindo em seco, desejando que ninguém te ouça fazê-lo. Sabe-te pressionando uma lágrima cabisbaixa, para que ela não se evada. Sabe-te comprimindo os dedos das mãos, como se comprimisses o próprio coração, numa tentativa desesperada de o espremer até... até que o arrepio se esvaia, liquefeito, e que dele mais não reste que uma poça. Como uma poça de suor.&lt;br /&gt;Sangrado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;center&gt;&lt;b&gt;5. Abandono&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Decides-te. Não olharás para trás. Sairás da sala, pé ante pé, mas convicta de que abandonas e não te arrependes. Descalça sobre o soalho encerado, caminhas dois paços em direcção à porta. Está escuro.&lt;br /&gt;Hesitas. Trais-te. Olhas para trás.&lt;br /&gt;Espreitas furtiva, num olhar que esperas ser o último, o rosto daquele louco. Pensas: dois segundos só; dois segundos... Olhas. Mantém-se de pé, fumando um cigarro. Talvez o mesmo. Tem um sorriso encolhido nos lábios, um sorriso de espera. Tal como o olhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;por&lt;br /&gt;Diego Armés &lt;/b&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3650930-89284377?l=juliocostello.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/89284377'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/89284377'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://juliocostello.blogspot.com/2003_02_16_archive.html#89284377' title=''/><author><name>Julio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13520190805812693988</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_Ad-Lcst6ziY/SZbk2p7UzBI/AAAAAAAAAAM/4bxgtbkSGB8/S220/faxul.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3650930.post-86920300</id><published>2003-01-04T05:34:00.000-08:00</published><updated>2003-01-04T05:34:53.873-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;center&gt;&lt;b&gt;Quadras&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ruidoso, caminho por entre cobras, pedestres e aeroportos. Ouço sons de tambores e sigo-os. Não há calma nem placidez neste momento infinito. Só vejo dor, sorrisos infelizes e memórias de cantos inabitados e jamais vistos por lente humana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sofro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dia é um ruminante em contradição. Refaz-se a cada rotação, a cada momento enquanto choro choro choro rio rio rio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu amigo tem feições endêmicas. Sonâmbulo, transpõe a cerca, invade as casas e faz amigos em todas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu continuo aqui. Infeliz, sorrindo como um palhaço. Esperando o momento certo para transpor a cerca, invadir casas e fazer amigos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3650930-86920300?l=juliocostello.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/86920300'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/86920300'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://juliocostello.blogspot.com/2002_12_29_archive.html#86920300' title=''/><author><name>Julio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13520190805812693988</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_Ad-Lcst6ziY/SZbk2p7UzBI/AAAAAAAAAAM/4bxgtbkSGB8/S220/faxul.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3650930.post-84668023</id><published>2002-11-17T10:51:00.000-08:00</published><updated>2002-11-17T10:53:00.000-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;center&gt;&lt;b&gt;Marla&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;center&gt;&lt;b&gt;I.&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Manhã. O metropolitano e as saídas. É Outono, mas o cheiro mais forte é o da manhã. Cheira a gente. A gente a fingir de fresca. Cheira a pálpebras em sobrecarga e a vontade de descarga. Cheira a champô e a bálsamo. Misturado. As coisas cheiram a algo: mistura. Algures, entre o Outono e o champô e a manhã. Cheira a laca e a homem das castanhas. Também ele cheira a peso de pálpebras. Fumaça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem das castanhas enrola o perfume matinal, euro e meio a dúzia. Muitas dúzias. Dúzias em rebuliço. Dúzias às dúzias, em marés de chegar, em marés de ir embora. Para chegar e para partir. Movimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Manhã. As conversas são poucas. A manhã é escassa nas palavras. Aponta o dedo ao autocarro. Stop. Mostra o passe. Não há bons dias. Não há maus dias. Há dias e dias. E dias. Sempre assim. De manhã cheira sempre a manhã, quer seja Outono, Verão ou Inverno. Ou Primavera. No Outono, as manhãs cheiram a manhã e um pouco a Outono. Talvez seja o homem das castanhas com a fumarada ambulante e as ciganas espalhando os trapos pela manta, no chão. Um cigano vende guarda-chuvas. Compra-se um. Já &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;é Outono. O dia hoje está Novembro. Talvez o guarda-chuva dê jeito. Hoje ainda chove. Outono, sem um grãozinho de chuva, que Outono é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O autocarro é passageiro. Somos todos autocarro, até à próxima paragem. A avenida. Bela avenida, a pingar orvalhos. Tudo dentro da mesma nuvem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez me apeteça um café.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Café. Há lugar sentado. Aproveitemos. Junto à janela, a ver a gente lá fora, a ver as poças, os sapatos sujos, os cartuchos das páginas amarelas, os matutinos debaixo do braço. Passo acelerado. Um homem ajeita as luvas de napa preta. Usa chpéu de feltro. Mãos agora nos bolsos da samarra. Acelera o passo. Não há bons dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, entretanto, o café. Quentinho. Um copo de água, por favor. Primeiro cigarro do dia. Adoro a minha cigarreira de prata. Nunca fumo de luvas. Deixa um cheiro estranho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O café ainda não cheira a um café. Ainda é manhã de mais. Ainda cheira a gente. Cheira a cheiro de lençóis quentes mal disfarçado. O duche não lava nada. Desmaia o calor das fronhas que se nos estampa nas faces e no olhar. Mas somos baços, mesmo assim. O duche não lava o sono, o cansaço. Não lava os dias por começar. Não lava o não querer começá-los.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelo meio, o café. Bom café! Apalpa-se o cigarro até &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;à nervura do filtro. Ao primeiro, mata-se a fome da &lt;br /&gt;noite em jejum. Esmiuçar até ao esófago das nuvens. Apaga-se o cigarro. Última vista da janela. A invasão &lt;br /&gt;das passadeiras. Autocarros extraviados: era mesmo ESSE o destino? Os autocarros atulhados, atestados. As pessoas cheias. Pagar e fugir. Obrigado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apontar o destino num canto qualquer da córnea. Desembrulhar uma direcção da amálgama contorcida dos rostos da cidade. Escolhe um. Vamos a isso. Fêmea. Rosto vincado mas suave. Olhar verde forte, como o mar nos dias carpidos pelas mulheres dos pescadores. Não sofre de solidão, denúncia de aliança. Morena. Escolhida. Cabelos longamente negros. Lábios grossos. Escolhida. Bóina à francesa, descaída sobre um dos lados. Castanha. Estranha. Escolhida. Vamos a isso. Move-se sorrateira mas decidida por entre a multidão impressa nas pedras confusas do passeio. Não corre. Discreta, como quem não quer dar nas vistas. Mas dá. Não escapa. Escolhida. O meu destino e o teu, numa manhã que cheira a manhã. É fácil seguir. Acompanhar-lhe as passadas medidas, elegantes. Atravessa a estrada. Atravesso. Escolhida. Apanhada. Vai descer as escadas do metro. Acompanho aproximação quase quase quase quase hesitação escolhida. Não desço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem será? Não desço. Não quero conhecer-te. Medo?! Chama-lhe o que quiseres. Não quero. Sim, talvez seja medo. Talvez prefira imaginar-te, moldar-te o destino e os gemidos das noites quentes. Talvez prefira saber tudo quanto és, por mim. Não por ti. Não desço. Posso reduzir-te o sorriso, secar-te as lágrimas, mexer-te e deixar-te. Prefiro assim. Prefiro não saber quem és.&lt;br /&gt;Imaginar-te, sem me preocupar com isso que és. Posso chamar-te Marla. Ou outro nome. Será que se chamava Marla?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;center&gt;&lt;b&gt;II.&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jardim. Um banco debruçado sobre a manhã. A cidade em baixo. A cidade atrás, ao lado, em cima. A cidade espalhada e reunida em todo o lado, em toda a gente. Os cigarros amolecem as cidades nos bancos de jardim com paisagem. Acendo. Segundo cigarro do dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marla senta-se na carruagem do meio ( tenho a certeza ), no lugar das grávidas e dos aleijados. Uma velha olha-a. Que olhar tão repreensivo! Marla sabe o que pensa a velha. Levanta-se. A velha senta-se. A velha agradece, Marla sorri-lhe. Marla odeia o mundo, agora, um milímetro mais. E odeia a velha. Odeia o metro, o cheiro. Odeia o chiar esganiçado, quase gemido, das carruagens velhas. Odeia o cheiro da manhã e as manhãs que cheiram a Outono. Marla odeia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ajeita a bóina no reflexo do espelho improvisado na porta ( de SAÍDA ). Um jovem devora-a de olhar viscoso. Marla inspira. Marla tem calma. Marla não lhe batas. Não odeies, Marla. É a cidade, Marla. Não vale a pena irritares-te. Mas Marla odeia-o.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aperta a gabardina. SAÍDA, próxima estação. Dispara uma rajada retinal sobre o baixo ventre do jovem, pelo reflexo na porta ( de SAÍDA ). Quem dera que estes olhares fossem balas e a mente pistola. Quem me dera. Estou farta. Marla sai do metro.&lt;br /&gt;	&lt;br /&gt;Sol do bom, lá sobre a colina do outro lado. A Sé toda reluzente. Parece um grão de areia ao sol, daqueles que brilham numa praia boa de maré de embalar devagarinho. Tudo o resto é o resto de um domingo de praia: gente gente gente gente. Gente a nadar, gente a correr, a gritar, gente a sujar-se, a mergulhar, gente a comer, gente a afogar-se. Gente. Gente a fazer fazer fazer fazer.&lt;br /&gt;	&lt;br /&gt;Marla viu o sol, mas de fugida. O café foi curto. O queque, a meio caminho andado. Falta meio caminho. O escritório está perto. Há, porém, o elvador que Marla odeia. Marla, hoje, subirá até ao quinto andar pelas escadas. Sim, estou certo. Marla abre a porta, cansada, arfando. O patrão bondia-lhe, mal-disposto. Marla tira com a língua um último pedaço de queque do molar que a constrange. Bondia ao patrão. Engole o pedaço de queque. Senta-se. Na secretária, emoldurada em formato A5, imitação de casquinha, a família. Marido e um filho. Marido normal, igual a outros maridos de Marlas outras. òculos, gravata, pasta na mão direita, blazer de segunda ( é novo lá no escritório, claro ).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Filho: o filho não se parece com ela. Nada. O filho não é. O filho não pode ser. Filho como os outros, por via graciosa da natureza. Não é. Marla gosta dele, é certo. Marla ama-o como uma mãe de um filho ama um filho, o seu. Mas a verdade de Marla diz: Este filho não é Filho. Marla adoptou-o. Claro. Marla odeia o mundo. E Marla não daria do corpo um fruto seu aos infernos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marla é esta: executiva; tem um marido e um filho. Marla poderia ser feliz. Marla poderia ser feliz de tal modo que alguém fosse capaz de a invejar. Sei-o. Marla é invejada. Feliz?!...&lt;br /&gt;O sol aquece. O jardim esperará até amanhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A rua alonga-se por entre o costume da cidade: corropio. Um eléctrico estica três miudos da cauda. Uma curva apertada. Não caem. Um dia será o miudo de Marla sobrevoando os carris, mãos seguras à crina férrea do arrepio. Por hora ainda é por demais tenro. Amigos, só os do infantário - que Marla não pode cuidar dele a todas as horas. Marla tem emprego, compras para fazer e coisas para odiar. Não tem tempo para tudo. Um dia, Marla chegará a casa e Miguel, decerto é este o nome do filho ( que não é Filho ), terá crescido. Tanto, que vagueará pendurado em eléctricos veraneantes à carga de turistas. E Marla nem dará conta. Um dia, Marla sentar-se-á no sofá, ao lado do marido que outrora conhecera. Nesse dia há-de contar-lhe os cabelos brancos e há-de demorar tanto tempo a contá-los que se sentirá velha. Gasta. Espreguiçada tantas e tantas vezes. Marla não sabe como o tempo passa. Marla não tem tempo para dar por isso. Mas há quem a inveje. E, se Marla conhecesse esse alguém, havia também de odiá-lo, por certo. Que Marla é uma mulher de rijezas frias e ódios quentes, dauqeles que afloram a pele logo que toca o despertador. Mas Marla nem repara. Marla só se conhece quando se reconhece no espelho e dá conta de que existe. E, quando o faz, pensa: para quê? Sei que assim é. Marla é facilmente imaginável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desce-se a rua e cheira-se o paladar húmido do rio. Maré baixa. O odor dos canos e dos ratos trepa, margens acima, mais facilmente. O sol está mais encoberto. Ainda vem a chover, hoje.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;por Diego Armés&lt;/b&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3650930-84668023?l=juliocostello.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/84668023'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/84668023'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://juliocostello.blogspot.com/2002_11_17_archive.html#84668023' title=''/><author><name>Julio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13520190805812693988</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_Ad-Lcst6ziY/SZbk2p7UzBI/AAAAAAAAAAM/4bxgtbkSGB8/S220/faxul.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3650930.post-84667855</id><published>2002-11-17T10:45:00.000-08:00</published><updated>2002-12-12T14:41:17.000-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;center&gt;&lt;b&gt;ódio de estimação&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;center&gt;&lt;b&gt;I&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adriana teve uma violenta discussão com sua amiga Paula. Indispora-se por a outra ter-lhe roubado o namorado. Adriana, perturbada, não teve muitos argumentos para vencer a traidora. Preferiu ir para a casa trancar-se no quarto para chorar.&lt;br /&gt;Três meses depois, Adriana destilara bem o rancor. Recordava sempre os favores feitos para a outra, a devoção e o segredos contados, blusa de lã emprestada e não devolvida e outros objetos, passando, assim,  a odiar sua melhor amiga.&lt;br /&gt;Foi por esse tempo que descobrira sua gravidez. Pensou que melhor álibi não teria para vingar-se. Um filho! Um filho! Dizia radiosa para o espelho enquanto apalpava a barriga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O namorado seria avisado, acabaria o caso com Paula e tudo voltaria ao normal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao receber, no seu aniversário, um cartão e em anexo o resultado de um exame de gravidez, o namorado de Paula pensou tratar-se de uma brincadeira. Verificou o nome constante do exame e telefonou para Adriana, dizendo não assumir a paternidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chorando, Adriana não teve palavras para contrariar às do telefone.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paula e o namorado casaram-se seis meses depois, coincidentemente na época em que Adriana estava para dar à luz ao bebê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;center&gt;&lt;b&gt;II&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A floresta está repleta de árvores frondosas. Pássaros cantam alegremente. O rio corre manso e Paula acaricia o marido. Comentam coisas do cotidiano, fazem planos para o primeiro filho. Relembram a história dos dois: Adriana, filho, ameaças e casamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paula diz sentir muito a incompreensão da amiga  e que ainda a estima. O marido diz não estar arrependido, que fizera a escolha certa. Beijam-se.	&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os espectadores observam Adriana empurrando um carrinho de bebê. No primeiro plano o casal se abraça trocando palavras de amor. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ana, distraída ao responder uma pergunta à irmã, não percebe quando Adriana dispara três tiros em Paula e dois no ex-namorado. A platéia em alvoroço parece não aprovar o gesto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ciro, que não desgrudou os olhos da cena, fica um tanto chocado com o realismo empregado pelo diretor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Através dos olhos de Juliana a heroína arrasta os corpos até um tronco de árvore, beija-os e  os abraça fortemente. Os olhos de Maria José vêem os seios de Adriana ensopados de leite e sangue e, pelos ouvidos de Leandra, ouvimos o choro da criança. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Silvana admira a coragem da protagonista em fingir amamentar a criança com os seios de Paula.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adriana une os corpos sobre a toalha do piquenique.  Despede-se do palco com um olhar perdido, a empurrar o carrinho do bebê. Fecham-se as cortinas.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3650930-84667855?l=juliocostello.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/84667855'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/84667855'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://juliocostello.blogspot.com/2002_11_17_archive.html#84667855' title=''/><author><name>Julio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13520190805812693988</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_Ad-Lcst6ziY/SZbk2p7UzBI/AAAAAAAAAAM/4bxgtbkSGB8/S220/faxul.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3650930.post-84667527</id><published>2002-11-17T10:34:00.000-08:00</published><updated>2002-11-17T11:00:03.000-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;center&gt;&lt;b&gt;Acordas Manuel&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As moscas da rua já não são as borboletas de antigamente. O escárnio dos milhafres, grasnado a horas indecentes, arrepia-te os capilares. Saboreias as palavras dos outros, mas as cócegas que te fazem não te dão para a descontracção. São estas as maravilhas do mundo. Não são sete, são mais. Ou menos. É assim que estas coisas se contam: por aproximação, desaproximação, distanciamento e infinito. É assim que se faz das maravilhas as coisas maravilhosas que elas são.&lt;br /&gt;	&lt;br /&gt;Acordas Manuel e adormeces manual. Manualmente, como se te masturbasses, mas não o fazes porque és indecente e achas que isso é imoral. Acordas Manuel, para o trabalho, esse ingénuo, ignorante e afável. Adormeces manual, porque sabes como se fazem as coisas da sobrevivência. Não te dá prazer; adormeces imóvel – assim fica a presa quando sabe do predador. Nem tudo isto é &lt;i&gt;peace and love&lt;/i&gt;, por assim dizer. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A nudez do espelho lembra-te a podridão da juventude.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anseias pelo obséquio dos senhores que importam e retribuis com uma lambidela húmida e coerente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordas Manuel, olhas-te ao espelho: sim senhor, confere, Manuel! Adormeces manual, cheio de instruções, indicações, contra-indicações, definições, cifrões, informações, ebulições e irritações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Andas sozinho e teimoso. O feitio e o formato das ruas não te dão paz ao cerebelo. Tens a mania sensata de concordar com quase tudo. Olhas-te mais uma vez ao espelho, só como quem confirma se ali está, se há ou não. As ternuras do passado são fechaduras borbulhosas em que raras vezes tocas. Tens medo. Desaproximas-te. Levas à boca a malga, afogas o estômago numa zurrapa qualquer, deixas-te aniquilar. Largas-te embriagado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É tudo tão digital, tão paranormal, tão funcional, às vezes, intelectual. Tu, Manuel, és manual. Nuca te fizeste à estrada. Sonharas um dia ser caixeiro viajante ou vagabundo ou outra espécie de aventureiro. Ter uma mala grande. Levar lá dentro uma mulher boa. Dar-lhe fodas pelo caminho. Mas não. Isso seria indecente. Imoral. Tu és vertical, especial, formal. E és razoável, fiável, inviolável, incansável, até sociável. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vacilas, incapaz do equilíbrio das aves. É natural.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; A mulher é como a pêga. Uma coisa negra e chata que bate a asa quando lhe apetece. Pelo caminho, aspira com o bico o quanto luza. E tu, Manuel, flores, para ti, só das que se cheirem. Entretanto, manual de novo. Faz-se assim o sexo à maneira do solitário. Mas desse não fazes tu, que se te abalam as morais. Logo ouves o rosnar dos deuses, como quem denuncia o pecado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vais à igreja aos domingos, conversas com o senhor, contas as maldades da língua, da mente e da tentação que se te ergue no corpo. Escutas a sentença, acenas que sim, que não mais se te erguerá a vontade do pecado, vais em paz e descansado, feliz contigo mesmo. Afastas os pensamentos venosos, largas e deixas cair a memória dos beijos, lá longe, na primeira esquina que te ofereça vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As valsas que enxergas no canal porno, finges que não existem. São mentiras que os melros pernoitantes exclamam lá fora no pátio. Encolhes-te. Que vergonha! Tudo mentiras, mas deus vai desconfiar do derrame no lençol do costume. Vai à casa de banho, lava as mãos, esfrega daí a sujidade azeda. È mentira!, diz de novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lês a Bíblia ao jantar, embebedas-te no agridoce dos milagres do salvador, confessas-te ao talher mais próximo, como se o fizesses a um santo: eu, Manuel, sou manual!   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Por Diego Armés &lt;/b&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3650930-84667527?l=juliocostello.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/84667527'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/84667527'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://juliocostello.blogspot.com/2002_11_17_archive.html#84667527' title=''/><author><name>Julio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13520190805812693988</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_Ad-Lcst6ziY/SZbk2p7UzBI/AAAAAAAAAAM/4bxgtbkSGB8/S220/faxul.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3650930.post-84667377</id><published>2002-11-17T10:29:00.000-08:00</published><updated>2002-12-12T14:47:14.000-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;center&gt;&lt;b&gt;Rivais noturnos entre os devaneios de Rita e João&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na noite anterior, João não dormiu. Passeou pelos cantos da casa, sentou-se e nada de sono. Resolveu ler, não conseguiu atentar para o que estava lendo, desistiu. Ao ligar a TV, percebendo a sua inexpressividade quebrou-a. Às três da manhã, perseguindo  o que poderia ser o único fio de sono – perdeu-o e viu-se entediado, isolado entre o dia e a noite, sem perceber que, ao lado, a casa do vizinho ardia em chamas, um senhor de meia-idade morria na rua ao lado e os cães fugiam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entorpecido como numa espécie de transe, olhou o fogo até o esmorecer. Na manhã, dia claro, acordou. Percorreu os azulejos do banheiro embaçados pelo vapor do chuveiro. Encontraram-no dormindo no banco do jardim. Acordaram-no, era tarde. Não compareceu ao trabalho. Deitou-se na cama. A casa do vizinho não estava lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Feriado Nacional. João desfila com seu terno. Ele é influente. Destaca o bilhete de passagem e embarca num navio rumo ao nada. Acompanham-no o vizinho chamuscado, o cadáver e a matilha perdida. Mesmo no momento da extrema unção percebe não ser portador de outros sacramentos. O navio decola. Enquanto o navio transborda em sua abundância de víveres, João se alimenta. Em seu camarote recebe a companhia de Max, o cão pastor. Daí entram em um colóquio filosófico sobre a origem da água na aquavia. Batem à porta, recebe então a Condessa, senhora robusta que faz ranger o assoalho com seu peso considerável. Fala-lhe das possíveis dietas e de suas predileções gastronômicas. Saem aborrecidos a Condessa e o cão pastor. Embarcam logo a seguir numa chata, gritam-se impropérios. O argumento de ambos é sobre a conversa com João. Você, Condessa, fragmentou minha conversa com o nobre João. E Você, cão pastor, troçou do meu comentário sobre as iguarias. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;João está sozinho no camarote. Depois de se entreter com a conversa, continua só. Depois de certo tempo resolve visitar o vizinho chamuscado que o recebe friamente. O vizinho apresenta-lhe suas queimaduras de terceiro grau e a órbita do olho direito que se esvaiu nas chamas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; “Clamei por ti vizinho. Enquanto minha família se tornava carvão o sr. dormia. Pedi socorro e não o recebi. Hoje não tenho paz, o lado esquerdo de meu pulmão foi incinerado e sequer posso segurar uma xícara de café. Respeitei teu sono,  no entanto, no infortúnio, não me valestes. Agora me fecho contra esse mundo cruel de carne fresca que agora se me apresenta. Se tu soubesses o que é ter o coração queimado certamente entenderia meu sofrimento”. João retorna ao vazio daquela noite. Não entende porque a matilha invade seu camarote. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dentro do quarto percebe um cheiro acre, nauseabundo. É o cadáver a lhe perseguir a lhe dirigir palavras hostis,  responsabilizando-o pelo seu fim. Lembremos que João é uma personalidade influente e que deveria pôr segurança no seu bairro, organizar o próprio ambiente de trabalho e o cenário de sua insônia. João diz não ser responsável e que nada entendeu, e que era difícil suportar tantas acusações infundadas de pessoas equivocadas e suspeitas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O travesseiro exige - pede uma resposta para sua aposentadoria antecipada. Não é usado há duas semanas. É lançado através da janela do camarote afundando a exatos dois minutos.  Numa confusão sem precedentes João chora silenciosamente, refaz-se e rumo ao restaurante encontra uma foto no chão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A foto em branco e preto revela uma imagem já conhecida. Alguém que o espreitara desde o choro, propositadamente depositara aquela foto: sugestão de um encontro silencioso e João logo compreende. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rita o espera ansiosamente, quase ofegante - minutos antes, a foto e a fuga - na mesa em que sempre o esperara. João senta-se ao seu lado e com um sorriso causa o efeito  esperado e exprimem ternura, quase um bálsamo para a pior das dores. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No barco salva-vidas observam-se os transeuntes a chegada ao porto. Ouvem-se murmúrios, gritos de crianças ansiosas. velhos lamentam por cansaço. A cidade é bela, com suas casas e pessoas simpáticas. Rita e João se despedem. Rita volta ao barco, João para casa. Continua o trajeto e sua tragédia particular ao encontrar-se perdido na conexão do sono desfeito. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos: o vizinho chamuscado, o senhor de meia-idade morto e os cães sabem que só poderão ver luz e regressar à casa dos pais no momento em que João adormecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3650930-84667377?l=juliocostello.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/84667377'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/84667377'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://juliocostello.blogspot.com/2002_11_17_archive.html#84667377' title=''/><author><name>Julio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13520190805812693988</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_Ad-Lcst6ziY/SZbk2p7UzBI/AAAAAAAAAAM/4bxgtbkSGB8/S220/faxul.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3650930.post-84666810</id><published>2002-11-17T10:13:00.000-08:00</published><updated>2002-11-17T10:13:13.610-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;center&gt;&lt;b&gt;O Paquistanês das Flores&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;center&gt;I - &lt;b&gt;O Primeiro Capítulo&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrou em casa, de rompante, sem medo, como uma bala desvairada e senil, acrobaticamente arrependido, mas, por outro lado, constipado e eufórico. Exclamou mãe!, com um sorriso nos dois lábios, fez uma pausa e alongou a exclamação mãe! estou grávido!. A mãe primeiro não ligou, depois não quis saber, finalmente espirrou, depois assuou-se, tossiu, sorriu, grunhiu, por fim explodiu: grávido, meu puta?! outra vez?! Estava furiosa. é a segunda vez esta manhã, meu porco. Levanta-te e vai já lavar as mãos!&lt;br /&gt;A mãe era uma fera. Ia à igreja apedrejar o padre, quando tinha paciência. Entretanto, o pai chegou a casa. ah, meu anormal, cheiras-me a prenho outra vez. a mãe logo acrescentou  esse puta anda sempre a engravidar. Floriano ergueu-se da cadeira, muito hirto, de semblante carregado, beiços obstinadamente voltados para o chão, narinas a ferver, doía-lhe o joelhito. Sentia-se, no fundo, ofendido.&lt;br /&gt;Quando o pai lhe sentenciou vou te molestar a espinal medula, em consequência de teus irreflectidos actos Floriano ajoelhou-se, retirou dos bolsos um lenço ensanguentado, comeu-o e exclamou por ti arrotarei, velho pai! O pai - sempre incógnito no seu jeito silencioso de pensar, sempre calado enquanto não falava, sempre respirando fundo, arfando a malvadez que lhe corria nas veias pelos poros desobstruídos, sempre sendo o pai – olhou-o, tirou um canivete do bolso das calças de fazenda, afiou-o no tampo da mesa, que era de mármore encarnado, de Milão, uma fortuna, puxou do filho Floriano a condenada e tristonha espinal medula. Floriano arrotou. A mãe concordou que as tuas preces se ouçam nos confins da rua, assim como o teu castigo me sirva de emenda para não mais praguejar antes do sol se pôr. O pai olhava sereno aquela parte perversa do corpo, mole, gelatinosa, húmida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;center&gt;&lt;b&gt;II - O Capítulo da Vingança&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um relâmpago monstruoso e sinistro abriu, sem hesitações, a porta da coelheira. Carminda, a coelha fantasma, aproveitou e, de um pinote, com toda a felicidade que lhe era permitido sentir estampada no rosto, galgou para o quintal das traseiras. Ouviu barulho dentro da casa. Aproximou-se, sentiu o cheiro do esfaqueamento que se adivinhava. Decidiu agir. Espreitou pela janela e deparou-se com aquele triste teatro: o pai sentado, afiando o minúsculo canivete na belíssima pedra da mesa; Floriano de joelhos, sem espinal medula, arrotando em vão; a mãe dando graças a deus, sem saber por quê, tecendo largas teorias ao disparate que se lhe acercava da cabeça insonsa e vaga. Carminda, a coelha fantasma, não se conteve. Quando o velho pai se preparava para esfaquear, de uma só vez, com tamanha crueldade e frieza, a frágil espinal medula de Floriano, Carminda, a coelha fantasma, gritou stop, for god’s sake. are you loosing your mind? don’t you do that again, never again, you heard me?! now, get up and go wash your hands. &lt;br /&gt;O pai, que era um pouco estúpido na sua maneira habitual e imbecil de ser, na sua bem-humorada fantasia de estar sempre mal disposto, na sua jangada feita de espinhas de bacalhau - que nunca ninguém viu, e eu já nem sei por que é que falei nisto -, o pai, paciente e leucémico, ergueu-se e foi lavar as mãos que jorravam nada, porque não tinham sangue. Carminda benzeu-se e agradeceu a deus por não ter chovido durante quarenta dias e quarenta noites, pois seria um disparate inundar assim as pessoas e podia até trazer nefastas consequências à agricultura e, mais ainda, às pescas, uma vez que os peixes disporiam então de muito mais água por onde nadar. Seria um caos, com os pescadores a correr de um lado para o outro, cana de pesca às costas, tentando, em vão, apanhar cardumes e cardumes de piscícolos fugitivos, que certamente fugiriam para sítios tão estranhos e remotos como o Sardoal. Com isto tudo, a mãe agradeceu também a deus, não por não ter chovido, que a pesca e as couves não lhe interessavam por aí além, mas porque sentiu uma estranha iluminação ao ver Floriano apontar-lhe a lanterna. Floriano disse Ide-vos agora, doce e extremosa mãe. Ide-vos em paz, e em paz ficarei eu, embora intranquilo, pois meu coração palpita e saltita e já não sei mais que fazer. Talvez tome uma aspirina. E tomou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;center&gt;&lt;b&gt;III - O Capítulo Com Imigrantes Clandestinos&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Carminda partiu então em busca de um desconhecido que lhe oferecesse flores ou então um colar de diamantes, ou qualquer coisa original, como uma jangada de espinhas de bacalhau. Era então noite, uma noite leitosa e materna, como Carminda não vislumbrara nunca. As estrelas cintilavam, airosas, mesquinhas, entorpecidas, afáveis, afro-americanas, talvez nem tanto. Era lindo!&lt;br /&gt;Floriano saiu de casa para ir trabalhar. A labuta, ganha-pão da altura para a famigerada, injustiçada e desfavorecida classe operária. Floriano era, obviamente, estalinista, embora não tivesse as melhores recordações dos seus tempos longínquos de criança, em que brincava de esconde esconde e bate-pé, de toca-e-foge e supermen, em que, diziam, imitava na perfeição gente que ninguém conhecia e até animais que nem deus se lembrara de inventar. Um verdadeiro aristocrata hipocondríaco, com crises gastro-intestinais frequentes e eloquentes a julgar pela forma como lhe transtornavam o rosto, já de si distorcido. Mas nem sempre. Havia dias - há sempre destes dias - em que Floriano não era tanto assim, nem tão pouco outra coisa, mas apenas um comunista, nem distorcido nem por distorcer. Assim assim.&lt;br /&gt;Carminda, a coelha fantasma, encontrou um desconhecido, interpelando-o com grande à-vontade e boa disposição, se bem que de uma forma um pouco obscena então, as minhas flores? interrogou, mostrando as pequenas tetas com grande sensualidade. O desconhecido ripostou, sem demora, frô? eu não tem frô. ma tem xamomn. qué xamon?  Carminda acenou que sim, retirou do bolso da gabardina misteriosa, que até aqui não existia, e que a partir de aqui talvez nem volte a existir, quinhentos escudos. Em troca, recebeu um naco castanho em forma de sabonete de motel (quinhentos escudos!...). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;center&gt;&lt;b&gt;IV - Um Capítulo Parado, à Espera de Um Autocarro&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava, de repente, como que por magia, um dia vistoso e bem cuidado, com um sol um pouco acabrunhado e distante, mas agradável. O sol estava distante e ainda bem. O dia era vistoso, o que é bom, mas era um dia igual aos outros, uma vez que os outros também tinham um sol vistoso. Só não era, habitualmente, tão distante. Mas a vida é assim, um dia não são dias e o sol quando nasce, uma vez por dia, não mais que isso, não pára de nos surpreender com as suas graçolas pueris e com baixo teor alcoólico.&lt;br /&gt;Carminda, a coelha fantasma, sentou-se numa paragem de autocarros amarelos para fazer a ganza de xámon. A paragem de autocarros amarelos era um pouco ineficiente porque era um pouco deficiente. Mas, no fundo, todos somos um pouco deficientes. Mas a paragem era mais, porque era tetraplégica e, acima de tudo, porque era daltónica. Assim, não só mandava parar todos os autocarros, julgando que todos eram amarelos - ou então não, uma vez que ela não sabia o que era ser amarelo ou não-amarelo; de qualquer forma, nunca na vida houvera visto uma cor que fosse -, como também não conseguia correr atrás dos autocarros perdidos. &lt;br /&gt;Estava Carminda, a coelha fantasma, queimando seu xámon na calma pasmaceira incolor e daltónica da paragem de autocarros amarelos, quando vislumbrou, ao fundo da rua, muito carregado, caminhando devagarinho e com dificuldades, Floriano, o homem da espinal medula molestada. Este abeirou-se da paragem de autocarros amarelos, estendeu, o mais que pôde, o braço direito, e, ostentando na respectiva mão um enorme e amarelo objecto, perguntou à paragem desculpe, por acaso foi você que perdeu este autocarro? ao que a paragem não soube responder, porque era uma paragem estúpida e não falava português e era surda, como se não bastassem todas as outras lacunas que a preenchiam, por dádiva da mãe-natureza e oferta da divina providência. A paragem não respondeu e Floriano marimbou-se para o autocarro, deixando-o cair com estrondo. O autocarro amarelo tinha um ar esgaziado e tarado sexual, daqueles que andam de gabardina no parque, sem vestirem roupa interior para cobrir as partes exteriores, deslumbrando velhinhas saudosas e gatas com o cio. Mas, se calhar, até era um bom autocarro. Andava era sempre perdido. Carminda, a coelha fantasma, reparou, porém, que Floriano não se livrara ainda de todo o peso que o entorpecia. Na mão esquerda, o homem da espinal medula molestada, segurava com esforço a mesa de mármore vermelho de Milão, que valia uma fortuna e que era um disparate trazer assim para a rua, sujeita aos elementos da natureza e vulnerável a carácteres com propensão para amizades fáceis com bens alheios. Se alguém lhe roubasse a mesa, como iria esse alguém transportá-la até casa? E Floriano, como iria não-transportá-la até casa? São boas perguntas! Há aqui uma certa intriga, diria um certo suspense. E mais. Por que é que Floriano, o homem da espinal medula molestada, trazia com ele a mesa de mármore vermelho de Milão, que valia uma fortuna? Talvez tivesse fugido de casa e tivesse querido trazer com ele uma recordação, um souvenir, como se diz na Nazaré. Floriano trazia ainda, numa mochila que lhe carregava as costas doloridas e inoxidáveis, o paquistanês das flores, de seu nome Shakmibah. Vinha encolhido e a pensar em todas estas coisas, só que numa língua mais estranha, pelo que não vale a pena reproduzir, fiel ou infielmente, as palavras com que pensava os pensamentos. O melhor será mesmo ficarmos com uma ideia global do seu momento de interrogação. De qualquer forma, era visível o seu estado interrogativo, uma vez que vinha encolhido, sim, mas em forma de ponto de interrogação. O que não deixa de ser curioso num paquistanês.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;center&gt;&lt;b&gt;V - O Capítulo&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para a paragem de autocarros amarelos os dias não eram fáceis. Mas é assim a vida, um dia atrás do outro tanto dá na galinha que não mete a colher. Melhores dias virão, por certo. Mas com cores tão indefinidas como as de hoje. Isto é também um dado adquirido.&lt;br /&gt;Floriano, o homem da espinal medula molestada, e Carminda, a coelha fantasma, conversavam alegremente após terem fumado a ganza. O paquistanês das flores, de seu nome Shakmibah, dizia qué mais? eu tem mais? si qué mais eu vende. poucos dinero. quinhento. só quinhento dinero. aproveita já, que Shakmibah estar bem disposto. quinhento dinero, vá. Floriano respondeu-lhe que não e Carminda perguntou-lhe se ele tinha flores, mostrando, libidinosamente, as suas tetinas meio húmidas na pontinha obscena dos seus seios pequenos mas redondos. O paquistanês das flores, de seu nome Shakmibah, pensou que estava a ter um déjà vu, e decidiu partir. Aparentemente não gostava de palavras em francês. Ficaram na paragem de autocarros amarelos apenas Craminda e Floriano e o cheiro do xámon. Shakmibah, o paquistanês das flores, deixara também um pouco do seu odor, o que era óptimo: assim evitava que Floriano e Carminda tivessem saudades dele; por outro lado aumentava o efeito da droga. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;center&gt;&lt;b&gt;VI - O Capítulo em que aparece o Camarada Normando&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegou o camarada, que era lunático, vinha da Normandia ainda com um palito nos dentes. Trazia os dentes na mão. Veio no autocarro amarelo, que não parava. Veio e foi, se o autocarro não parou. A esta hora, já devia estar perto da Normandia, outra vez, que os circuitos dos autocarros amarelos são sempre iguais, ora num sentido ora no sentido inverso. É pena, podíamos ter ficado a conhecer melhor o camarada, que era um pouco lunático. Embora eu o tenha conhecido, nos tempos em que também andei meio perdido, ora para cá, ora para lá, no autocarro amarelo que passava pela Normandia. A Normandia é um sítio muito bom. Só é pena não ter paragem de autocarros amarelos. Nem sei porque é que os autocarros amarelos passam por lá, se aquilo nem tem paragem de autocarros amarelos. Vendo bem, nem sei porque é que há autocarros amarelos, se eles não param em sítio algum. Viajar, sempre se viaja, não se chega é a lado nenhum. É um pouco como a vida. A vida também não pára, é muito trabalhadeira, boa dona de casa. Mas isso leva-a a algum lado? Não leva. Vê a novela das nove, e é quando tem tempo. A vida não é para quem pode. Quem não pode é como quem não come. Gato que treme com frio arregala os olhos só de ver um pardal a ladrar.&lt;br /&gt;Mas a Normandia... Que saudades que eu tenho da Normandia. E de outros sítios também. Mas o que mais me fascina são as interjeições: o 'mas', por exemplo. Adoro repeti-lo incessantemente ao longo dos textos. Mas isto não é sempre. E sempre também não é só isto. Pau que bate cego na costura das calças, arregaça as mangas e foge para França no dia de Ano Novo. Adoro a sabedoria popular. Um sábio que é popular, pode nem saber nada, desde que fale na televisão. É como os escritores: podem nem escrever nada de jeito. Desde que não escrevam por cima da televisão, ninguém lhes liga, tal como aos que escrevem coisas de jeito. Riacho que nasce coxo, canta de dia e amanha-se durante a noite, não vá o diabo tecê-las.&lt;br /&gt;Sei que um dia o camarada Normando, aquele lunático do autocarro amarelo, que não pára e que passa muitas vezes - todos os dias - pela Normandia, há-de chegar a bom porto. E então poderei contar a história da sua vida, que é tão biográfica que parece real. Hoje em dia é difícil ter uma vida real. A monarquia extingue-se a olhos vistos. Rei que apanha fruta e dá explicações de matemática aos domingos e feriados, tarde ou nunca se endireita. Cão que morde duas vezes, ladra para morder só da primeira. A menina da tanguinha é muito melhor que a minha vizinha. &lt;br /&gt;O Normando é um gajo estranho. Foi então que irrompeu, como um furacão destemido, cor de rosa e epiléptico, Carminda, a coelha fantasma. Trazia o rosto ensanguentado como uma urtiga, ou como duas urtigas. E, em seguida, ninguém sabe o que aconteceu ao certo. Dizem as más línguas actho quielhes visserão zecso. Mas ninguém percebe as pessoas com defeitos de fala, ainda por cima na língua. Oh!, a língua! E logo a língua! Não há coisa pior que uma língua, quanto mais uma má língua. Uma má língua é como um penalty mal marcado. &lt;br /&gt;O Normando é um gajo estranho. Abana a cabeça para dizer que não. Para mim é igual. Deixei de lhe falar, já lá vão quase vinte e dois anos. E podiam ser mais, se não fosse aquele trágico acidente. Ainda há jornais que não falaram disso. E, já se sabe, jornal que não fala disso, não apanha nem rede nem peixe. Na Normandia o melhor são as paisagens. E no Normando também. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;center&gt;&lt;b&gt;VII - Talvez o Capítulo Final, Nunca se Sabe&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Floriano sentou-se, de forma calma e contida, na beirinha mais extrema do colchão. Na bordinha, como se diz em Figueiró dos Vinhos. Uma luz branda e bondosa alumiou-lhe de forma ténue o doce rosto. Dócil, Floriano ergueu-se. Passou as mãos trémulas pelas curvas ofegantes e sedentas do corpo que se plantava na sua fronte. Reparou que estava húmido. Um voz disse Floriano, a tua mãe, desta vez, acertou-me em cheio. Era o padre. Floriano reconhecer-lhe-ia a voz, nem que fosse no cúmulo do infinito. Floriano ficou feliz por ver de novo o padre, embora a luz fosse precária devido à falta de pagamento da conta de electricidade, tendo, inclusive, sido ignorados sete 'últimos avisos de suspensão do serviço'. O padre esvaía-se em sangue. Morria, aos poucos, nos braços de Floriano. As suas últimas palavras foram tira daí a m... Floriano não percebeu e não tirou de lá a mão. Padre que morre viscoso acorda com mau hálito, de certeza.&lt;br /&gt;Floriano cogitava, o padre permanecia inerte, em câmara ardente. Floriano pensava na mãe, esse animal embestecido, tomado de rédeas pelo diabo impiedoso. Ser terrível e vocacionado para o homicídio das hostes mais beatas. A mãe. Floriano odiava a mãe. E a mãe não sabia. A mãe era uma ignorante, pálida, virgem, carrancuda, velha e má língua. E, já se sabe, as más línguas são como um penalty mal marcado. A diferença é que estão dentro da boca.&lt;br /&gt;O pai de Floriano, esse, era um homem bondoso e de fé. Nunca batia em padres e, muito menos, em freiras. Usava collants mas ninguém sabia. Nem ele próprio. Eram uns collants muito modernos e baratos que se rompiam mesmo antes de estarem vestidos. O que era óptimo, pois assim tornavam-se muito menos incómodos, especialmente em dias de calor ou de menstruação. E em, ainda mais especial, nos dias de calor e de menstruação. O pai de Floriano era um homem sensível e destemido, pelo que me vai ser difícil compará-lo a alguma coisa. Ficamos assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;center&gt;&lt;b&gt;VIII - Capítulo Absurdo&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Carminda, a coelha fantasma, entregou-se às autoridades por razões desconhecidas. Coelha que se entrega e é fantasma e às autoridades e é desconhecida e não tem razão, não entra mais nas minhas histórias!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;center&gt;&lt;b&gt;FIM&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Por Diego Armés &lt;/b&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3650930-84666810?l=juliocostello.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/84666810'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/84666810'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://juliocostello.blogspot.com/2002_11_17_archive.html#84666810' title=''/><author><name>Julio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13520190805812693988</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_Ad-Lcst6ziY/SZbk2p7UzBI/AAAAAAAAAAM/4bxgtbkSGB8/S220/faxul.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3650930.post-83284633</id><published>2002-10-20T22:59:00.000-07:00</published><updated>2002-10-20T23:19:58.000-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;center&gt;&lt;b&gt;A vida no exílio após a abdicação&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho hoje o desespero de um monarca. Destituído de poderes, tenho que resguardar-me na solidão do exílio. Hoje tenho dores morais e um certo desconforto físico por não mais representar os desejos alheios e os poderes a mim outorgados. Paulatinamente, o meu séquito dispersou-se no mundo numa constante fuga, reprisando as  clássicas diásporas que hoje não possui o menor significado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;27 meses. Estou debilitado com as chagas virtuais abaladas por uma lepra a deteriorar o que antes foi adorado por uma multidão de plebeus que imploravam um único sorriso como benefício. Não sei o que anteriormente fui, parece um deslavado choro de olvidado. Talvez interpretaram como tirania meu desejo de que todos pintassem suas casas de cinza. Ou quando ordenei que as mulheres usassem vestidos decotados e as pernas expostas, ou talvez, quando convoquei os filhos menores para uma batalha entre as tribos vizinhas. Ou quando, imitando Marte, invadi um colégio de vestais deflorando as virgens, que meses depois deram à luz a dezenas de rômulos e remos, cidades de Roma e uma alcatéia de amas-de-leite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um entendimento claro e simples: o leitor desconfia de minhas nobres causas . Se o que fiz foi apenas para o bem de um povo sujo, que não soube interpretar os adventos de uma nova sociedade, desprovida de futilidades e repleta de crenças fossilizadas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho que assistir minha decadência em fragmentos de vida que se esvaem enquanto a contemplo em cada conta de um rosário ou quando unidas num manto sacerdotal estendido no chão.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3650930-83284633?l=juliocostello.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/83284633'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/83284633'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://juliocostello.blogspot.com/2002_10_20_archive.html#83284633' title=''/><author><name>Julio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13520190805812693988</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_Ad-Lcst6ziY/SZbk2p7UzBI/AAAAAAAAAAM/4bxgtbkSGB8/S220/faxul.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3650930.post-83284309</id><published>2002-10-20T22:49:00.000-07:00</published><updated>2002-10-20T22:49:26.056-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;center&gt;&lt;b&gt;A Cabana&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Despertámos para a crueldade do mundo no dia da descoberta. Constatámos a ébria hierarquia do tempo: o passado, o presente e o futuro. Perguntámos 'porquê?'. A cronologia das coisas, o passado como fardo primeiro, insaciável censor do que está por vir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A impossibilidade dos cardos, da Praia, da Cabana e dos chorões. Dos aromas salgados do Oceano e dessa instituição absurda que é a Eternidade. A rede vazia, que nem sequer existe, há de balouçar para sempre ao ritmo dos corpos entrelaçados no pôr do sol. As vozes estridentes e irrequietas daquele batalhão de putos - os nossos putos - correndo e rodopiando pela liberdade das dunas. A fantasia do inacessível. A função omnipresente do sofrimento nas coisas do amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A boca do metro vem buscá-lo outra vez. Perguntamos 'porquê?'. Por uma hora foram vagabundos inconsequentes na interminável busca do que não há. Por uma hora se deleitaram à luz das velas, que não estavam lá, do luar, que teima em não existir à hora do almoço apressado, ao som de búzios longínquos, sonhados, desejados. Sem luxúria nem vertigem. Sem medo nem esperança. Apenas as mãos separadas, por pudor, os olhares fixos, satisfazendo o espírito, já que o corpo não pôde saciar-se. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As conversas fúteis, supérfluas, de quem tanto tem para dizer, mas não pode. Não sabe. Não tem coragem. Os nervos que a todo vapor se acercavam da refeição, o estômago tolhido, a falta de fome, o sonho - essa nuvem branca e imóvel que pairava, algures, sobre um e outro.&lt;br /&gt;	&lt;br /&gt;- Se o metro te devolvesse amanhã. Para sempre.&lt;br /&gt;- E tudo começou com um sonho filho da puta, com uma cabana e contigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adulterámos a realidade na esperança de termos coragem. Acentuámos a ingenuidade, a fingir que tudo poderia ser lindo. Fincámos os pés num raio perdido de um luar romântico, acelerámos os ritmos cardíacos, sintonizámos as pulsações, absorvemos, degustando, as migalhas que mendigámos ao tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cabana seria pequena, toda em madeira. Lá, encavalitada e sem jeito, no topo da mais bela das dunas. O mar seria o cavalheiro despertador, a canção de embalar, a expressão dos dias bravos, a comoção revolvida da calmaria. A areia seria branca e fina. Não tão fina como o pó. Delicadamente granulada. Pisaríamos os chorões espraiados pela paisagem e o nosso olfacto almejaria o horizonte, em busca dessa fonte maravilhosa dos odores bruscos e húmidos trazidos pela maré. A noite cairia suave e o dia haveria de nascer sempre risonho. No Outono, quando as névoas nos assaltassem a redondeza, embarcaríamos no mistério desse manto fino, branco e frio. Eu buscar-te-ia. Tu esperarias por mim. Deixaríamos que a imaginação nos guiasse por entre as cutículas minúsculas até nos encontrarmos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Cabana havia de ter uma lareira. Os rigores invernosos obrigariam à procura do aconchego, à noitinha, junto de um lume elegante e mansinho. Um pequeno fogo para nos alumiar a comunhão, para nos aquecer os corpos juntos. A criançada estaria a dormir. A noite seria só nossa. Da intimidade e dos prazeres. Despir-me-ias com a doçura da provocação, com a delicadeza do carinho. Aconchegar-me-ia em ti, ambos sem roupa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na Primavera as flores despertariam para nós. Talvez despontassem em pequenos montes impacientes, expectantes, loucos por estarem vivos. Tal como nós, nas quotidianas horas de acordar, ao lado um do outro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No Verão, à noite, em estando os filhotes ao abrigo do sono e dos sonhos, viajaríamos despidos pela praia só nossa. Palmilhando a escuridão da areia, o perfume das nossas peles, os gemidos, os gritos sussurrados e as declarações de amor.&lt;br /&gt;Fantasiámos o absurdo: isso de ser feliz. E era tudo mentira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poderá a boca do metro devolvê-lo, um dia? Sonham, em espera. Sem esperança nem luxúria: apenas um desejo infantil e inexplicável. Uma dor agradável, um sorriso combalido, um brilho ofuscado no olhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por um segundo, enlouqueceram a vida. Tornearam um destino, sorveram, um do outro, o pólen ligeiro que o tempo permitiu. Por um segundo, impacientaram os deuses - aqueles que nos recortam a carne das mãos e nos deixam sinais invariavelmente imortais. Por um segundo, o sonho - a miragem, a coisa que lhes enchia o corpo e a mente, essa alma nova e inabalável - parecia brotar. Destino: realidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A boca do metro veio buscá-lo, outra vez. Dejá vu. A carruagem partiu pelos escombros da humanidade, pelos despojos da cidade, pelos detritos do mundo, pelo que restava do resto da vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Declaro a imortalidade daquele segundo escorregadio, daquela fuga fugidia.&lt;br /&gt;- A eternidade no canto dos lábios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;por Diego Armés&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3650930-83284309?l=juliocostello.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/83284309'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/83284309'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://juliocostello.blogspot.com/2002_10_20_archive.html#83284309' title=''/><author><name>Julio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13520190805812693988</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_Ad-Lcst6ziY/SZbk2p7UzBI/AAAAAAAAAAM/4bxgtbkSGB8/S220/faxul.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3650930.post-83276308</id><published>2002-10-20T19:34:00.000-07:00</published><updated>2002-10-20T22:45:41.000-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;center&gt;&lt;b&gt;Os Solares continuam aqui mesmo&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava tentando um novo template e um endereço novo para os solares. Frustrei-me e eis-me aqui novamente, um novo template, simpes e com a proposta de textos do grande Diego Armés.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desconsiderem, por favor, o endereço divulgado semana passada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por enquanto os Solares cá ficarão até eu aprender a utilizar o "Team" e construir meu próprio template.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3650930-83276308?l=juliocostello.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/83276308'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/83276308'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://juliocostello.blogspot.com/2002_10_20_archive.html#83276308' title=''/><author><name>Julio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13520190805812693988</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_Ad-Lcst6ziY/SZbk2p7UzBI/AAAAAAAAAAM/4bxgtbkSGB8/S220/faxul.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3650930.post-82320643</id><published>2002-09-30T10:10:00.000-07:00</published><updated>2002-09-30T10:10:34.913-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;center&gt;&lt;b&gt;A lontra&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deve ser a cor dos dedos que faz a Lontra andar. No seu passo raso, ela age com razão e entendimento. Numa das noites do ano passado a lontra morreu. Velada pelos amigos a lontra agradeceu. Com seu laço - O laço - prendeu várias moscas num cofre gelado roubando-lhes a atmosfera terrestre. Anos busco relatos sobre a vida da lontra. Revelando meu objetivo sinto que esclareço melhor o fato. Amantes, ela esqueceu no patamar. Mas a lontra vive na imaginação de seu criador. Respeite-o, o criador não lhe satisfaz o desejo, antes esconde do que revela, obscurece o caminho com palavras cruas e indesejadas. Num universo fechado, entendo que o caminho da lontra são as vigas desta casa, é o ar umedecido de cores e cinderelas. Não há esperanças para fotografá-la, ela se preserva e morre. A Lontra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ricardo está a caminho. A correspondência está a caminho. Posso ler o conteúdo da carta. O texto é cheio de autocomiseração. A Lontra.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3650930-82320643?l=juliocostello.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/82320643'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/82320643'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://juliocostello.blogspot.com/2002_09_29_archive.html#82320643' title=''/><author><name>Julio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13520190805812693988</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_Ad-Lcst6ziY/SZbk2p7UzBI/AAAAAAAAAAM/4bxgtbkSGB8/S220/faxul.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3650930.post-81935022</id><published>2002-09-21T19:49:00.000-07:00</published><updated>2002-09-21T19:52:54.000-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;center&gt;&lt;b&gt;Faça a curva, meu camarada&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sérgio não sabe dirigir muito bem. É afoito, e anda atordoado com o trânsito desta cidade. Lamento fazer estas ponderações - e não gosto de interrompê-lo ou de fustigá-lo quando está ao volante. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gosto de estar ao lado dele, vendo-o sofrer com sua inabilidade. Transpira bastante, diz algumas coisas chulas, mas tenta me tranqüilizar ao pensar que devo sentir medo de algum acidente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há muitas lições para se tornar um bom condutor. Mas não pergunte a mim. Sérgio tem maior autoridade neste assunto. Ele dirige bem, mesmo tendo atropelado muitos transeuntes e causado transtornos a alguns postes. Sérgio é meu amigo e fico muito feliz de estarmos ouvindo no rádio uma &lt;i&gt;big band &lt;/i&gt;acompanhando os movimentos incertos do automóvel.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3650930-81935022?l=juliocostello.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/81935022'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/81935022'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://juliocostello.blogspot.com/2002_09_15_archive.html#81935022' title=''/><author><name>Julio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13520190805812693988</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_Ad-Lcst6ziY/SZbk2p7UzBI/AAAAAAAAAAM/4bxgtbkSGB8/S220/faxul.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3650930.post-81335270</id><published>2002-09-08T18:37:00.000-07:00</published><updated>2002-09-09T15:06:16.000-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;center&gt;&lt;b&gt;Uma imagem está alterada&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os fragmentos da retina estão no chão. Estes olhos que sangram olham insistentemente para mim. Não gosto deles, metem-me medo. O que preciso fazer para eliná-los?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diante do espelho não sou nada. Sou um reflexo da miséria, um esqueleto inumano e inodoro. Cheiraste o espelho?&lt;br /&gt;Tem cheiro? Não, não tem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Secretamente olhas para mim. Consegues realmente me ver? Sei. Não consegues. Quem consegue? Estou atrás das evidências. Embaixo, no fosso do vaso de flores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lady Marieta espera-me na estação e não tenho condições de buscá-la. Vá buscá-la para mim. Por favor. Espera-me durante dois anos. Ainda não consegui condução. Tire-me daqui. Desejo-te. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quadros quebrados não movem paredes. Nelas estão calendários ilustrados com faces rosadas de crianças imperfeitas. Sempre só. Assim: alguém que olha com retinas sangrentas merece mais do que linhas inúteis. Merece morrer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3650930-81335270?l=juliocostello.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/81335270'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/81335270'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://juliocostello.blogspot.com/2002_09_08_archive.html#81335270' title=''/><author><name>Julio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13520190805812693988</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_Ad-Lcst6ziY/SZbk2p7UzBI/AAAAAAAAAAM/4bxgtbkSGB8/S220/faxul.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3650930.post-81326124</id><published>2002-09-08T14:08:00.000-07:00</published><updated>2002-09-08T14:08:33.473-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;center&gt;&lt;b&gt;Os Vampiros&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa reclamava do jorro de sangue que saia do pescoço. Não entendia. Era bela a moça de sorriso sincero e latejante. Não olhe agora. Um ceifeiro corta caminho entre o trigal fugindo de um vampiro. Corre mais além, tropeça em turrão e agora nos apartamentos da vila mais fria, moradores afirmam ter vistos morcegos. Nos porões. As veias pulsavam forte. Para desespero dos famintos. Numa agonizava, perene, inútil gogolejar de palavras e de madrugada. Centenas de Mantras entoados em memória de um corpo no trigal. Finda a noite e o dia nasce. Perigo de menos. Numa acorda, sentido gelo correr nas veias. É fundamental a metáfora do tempo. Andando em círculos os animais chegaram até a floresta. Lobos entoaram seus louvores e o mundo brilhava. O ceifeiro estava morto. Centenas de desbravadores entrando no rio, centenas de enguias e suas descargas elétricas, afogamentos. Tudo isso Numa observava na obscuridade. É o fim, pensava. Agora que vida pedia, a vida lhe faltara. Ana, chega com o seu carro, venha me buscar, por que estou sentindo frio. Saudações. Numa.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3650930-81326124?l=juliocostello.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/81326124'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/81326124'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://juliocostello.blogspot.com/2002_09_08_archive.html#81326124' title=''/><author><name>Julio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13520190805812693988</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_Ad-Lcst6ziY/SZbk2p7UzBI/AAAAAAAAAAM/4bxgtbkSGB8/S220/faxul.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3650930.post-80737971</id><published>2002-08-26T11:25:00.000-07:00</published><updated>2002-08-26T11:26:34.000-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;center&gt;&lt;b&gt;Rambo&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rambo foi atropelado quando atravessava a rua. Chamavam-no assim por causa dos músculos que tinha. Mas era frágil como uma criança, tanto que morreu por descuido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Usaram a faixa vermelha (aquela, na testa) como símbolo numa passeata de protesto contra a violência no trânsito brasileiro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3650930-80737971?l=juliocostello.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/80737971'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/80737971'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://juliocostello.blogspot.com/2002_08_25_archive.html#80737971' title=''/><author><name>Julio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13520190805812693988</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_Ad-Lcst6ziY/SZbk2p7UzBI/AAAAAAAAAAM/4bxgtbkSGB8/S220/faxul.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3650930.post-80707490</id><published>2002-08-25T18:10:00.000-07:00</published><updated>2002-08-25T18:13:08.000-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>—  Choro por que quero.&lt;br /&gt;—  Não chore, que tudo vai acabar bem.&lt;br /&gt;—  Como você pode ter tanta certeza disso?&lt;br /&gt;—  Assisti a muitos filmes de televisão e te asseguro que tudo, tudo mesmo, vai acabar bem.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3650930-80707490?l=juliocostello.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/80707490'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/80707490'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://juliocostello.blogspot.com/2002_08_25_archive.html#80707490' title=''/><author><name>Julio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13520190805812693988</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_Ad-Lcst6ziY/SZbk2p7UzBI/AAAAAAAAAAM/4bxgtbkSGB8/S220/faxul.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3650930.post-80461347</id><published>2002-08-19T21:34:00.000-07:00</published><updated>2002-08-19T21:38:28.000-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;center&gt;&lt;b&gt;Peculato&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jorge era um filho da puta. Todos sabiam que ele roubava, o que não era pouco. Cuidando das finanças da prefeitura desviava constantemente uma boa parcela para suas contas particulares. O que era impressionante era a maneira dele manter o prestígio: participava com honrarias das comemorações públicas, era convidado para todas as festas e tinha uma mulher generosa e desejada.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;O primeiro escândalo público foi o superfaturamento na compra de lâmpadas para iluminação da cidade na época do natal.  Sua ação, mesmo tímida era (repito) conhecida de todos. O prefeito o alertava sobre uma possível denúncia por parte dos vereadores de oposição. Jorge não se importava, quanto mais roubava mais feliz e popular ficava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis que uma inesperada doença instala em seu corpo modificando a trajetória de nosso fraudador. Jorge está com lepra e sangra nos locais das chagas de Jesus. Talvez por providência divina são reprisadas as leis da antiga Mesopotâmia e suas mãos (símbolo inevitável do roubo)  dilaceram-se necrosadas. A doença não o impede de continuar roubando: amarra lenços sobre os punhos e com cautela  continua trabalhando. A princípio foi louvado por essa iniciativa, mas depois todos se afastaram com medo do contágio iminente.  O expediente vazio, as repartições converteram suas admirações em asco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de fraudar nas contas da educação (com o apoio irrestrito do prefeito),  perde a mulher desejada e é proibido entrar na própria casa. O prefeito temendo uma greve geral ordena que a cabeça de Jorge seja raspada e que o trajem de roupas vermelhas para que seja reconhecido por todos - preocupação da saúde pública. Anda agora com dificuldades de consultar seu saldo no banco, e quando o faz tem uma terrível decepção, o dinheiro sumira da conta conjunta.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O nariz desaba com uma gripe. As articulações, dolorosas, fazem-no gemer, sua derrocada está próxima. Os braços inutilizados são jogados no bueiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jorge perece ao meio dia de uma segunda feira de ócio e tédio. Hoje, sua trajetória inspira outros a lançarem-se à vida pública. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3650930-80461347?l=juliocostello.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/80461347'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/80461347'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://juliocostello.blogspot.com/2002_08_18_archive.html#80461347' title=''/><author><name>Julio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13520190805812693988</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_Ad-Lcst6ziY/SZbk2p7UzBI/AAAAAAAAAAM/4bxgtbkSGB8/S220/faxul.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3650930.post-80343189</id><published>2002-08-16T19:26:00.000-07:00</published><updated>2002-08-16T19:27:01.000-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;center&gt;&lt;b&gt;Água&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;não molhe a garganta com água.&lt;br /&gt;o combustível para tristeza é o amargo da boca.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3650930-80343189?l=juliocostello.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/80343189'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/80343189'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://juliocostello.blogspot.com/2002_08_11_archive.html#80343189' title=''/><author><name>Julio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13520190805812693988</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_Ad-Lcst6ziY/SZbk2p7UzBI/AAAAAAAAAAM/4bxgtbkSGB8/S220/faxul.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3650930.post-80109981</id><published>2002-08-11T14:24:00.000-07:00</published><updated>2002-08-11T14:24:37.000-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;center&gt;&lt;b&gt;Imperativo em favor de Augusto Santos&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;	&lt;br /&gt;Está congelado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sangue parece vidro. A pele branca de Augusto está petrificada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele morreu ontem. Três tiros no rosto, o sangue – e nessa gaveta de necrotério parece-me igual quando eu o conheci.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele foi Augusto. 40 anos, casado, três filhos – duas meninas e um menino. Sua esposa chama-se Sandra e ainda não sabe da morte do marido. Serei eu a dar a notícia. “Mas como aconteceu?” perguntará a esposa chorando compulsivamente.&lt;br /&gt; “Ontem a noite, quando chegava de viagem, foi assaltado e não reagiu, pura maldade”. A mulher estranhará o fato de o marido chegar antes do tempo conhecido. “Queria fazer-te uma surpresa” direi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os filhos agora sabem – estão inconsoláveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enterram Augusto sábado, manhã chuvosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A viúva visita-me neste mesmo dia. Fazemos amor várias vezes, demoradamente. Eu procuro a luz em todos os focos e versos do corpo de Sandra. &lt;br /&gt;		&lt;br /&gt;Os filhos estão na casa dos avós que fazem orações para o filho morto...&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3650930-80109981?l=juliocostello.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/80109981'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/80109981'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://juliocostello.blogspot.com/2002_08_11_archive.html#80109981' title=''/><author><name>Julio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13520190805812693988</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_Ad-Lcst6ziY/SZbk2p7UzBI/AAAAAAAAAAM/4bxgtbkSGB8/S220/faxul.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3650930.post-79873627</id><published>2002-08-05T20:20:00.000-07:00</published><updated>2002-08-05T20:20:43.873-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	— Está tudo bem?&lt;br /&gt;	— Não.&lt;br /&gt;	— Está tudo mal?&lt;br /&gt;	— Não.&lt;br /&gt;	— Está tudo chato?&lt;br /&gt;	— Não.&lt;br /&gt;	— Está tudo frio?&lt;br /&gt;	— Quente?&lt;br /&gt;	— Está triste por isso?&lt;br /&gt;	— Não!&lt;br /&gt;	— O que te chateia tanto?&lt;br /&gt;	— Nada.&lt;br /&gt;	— Mas por que esta cara amarrada?&lt;br /&gt;	— Não estou com a cara amarrada.&lt;br /&gt;	— Então por que estes olhos tão sinistros?&lt;br /&gt;	— Por que você pergunta tanto?&lt;br /&gt;                — Por que você não me dá uma resposta satisfatória.&lt;br /&gt;	— Por que devo te dar uma resposta satisfatória?&lt;br /&gt;	— Por que sou seu amigo?&lt;br /&gt;	— O quê?&lt;br /&gt;	— Heim?&lt;br /&gt;	— Está surdo?&lt;br /&gt;	— Que conversa chata!&lt;br /&gt;                — Não diga isso, sou seu amigo.&lt;br /&gt;	— Não me cobre isso.&lt;br /&gt;	— Caramba, isso parece novela.&lt;br /&gt;	— Vai tomar no cu!&lt;br /&gt;	— É bom?&lt;br /&gt;	— Como?&lt;br /&gt;	— Tomar no cu é bom?&lt;br /&gt;	— Esquece.&lt;br /&gt;	— Olha pra mim?&lt;br /&gt;	— Como?&lt;br /&gt;                — Outro dia nos falamos.&lt;br /&gt;	— Não haverá outro dia.&lt;br /&gt;	— Por que?&lt;br /&gt;	— Não haverá.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3650930-79873627?l=juliocostello.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/79873627'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/79873627'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://juliocostello.blogspot.com/2002_08_04_archive.html#79873627' title=''/><author><name>Julio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13520190805812693988</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_Ad-Lcst6ziY/SZbk2p7UzBI/AAAAAAAAAAM/4bxgtbkSGB8/S220/faxul.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3650930.post-79531180</id><published>2002-07-28T19:56:00.000-07:00</published><updated>2002-07-28T19:58:14.000-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;center&gt;&lt;b&gt;Tirania&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu mando em você, bem sabe. Tudo que peço é que me obedeça. Tiraria o meu coração para comê-lo? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu o faria com seu coração. Não peço perdão. Se cometo pecados, você deve implorar pela salvação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiz um passeio ontem:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vi uma linda cachoeira, uns 10 metros de queda e estava com uma mulher especial, bebemos muito, algo incrível, você é claro não poderia estar lá,  eu não ia deixar. Mas tudo bem, você ficou em casa emburrada com toda essa desfeita. Cheguei em casa, você estava solícita. Desconfio de toda a sua bondade – você poderia até me vencer, todo tirano pode ser morto, vencido, mas descobri que você me envenena com sua bondade, para destruir-me inquietar minha consciência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixa estar. Sei que você sofre por minha conduta, sei que é feliz às vezes, mas meu peito não encontra a medida entre sofrer e fazer sofrer. Mas por enquanto continuarei com a minha tirania.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3650930-79531180?l=juliocostello.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/79531180'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/79531180'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://juliocostello.blogspot.com/2002_07_28_archive.html#79531180' title=''/><author><name>Julio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13520190805812693988</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_Ad-Lcst6ziY/SZbk2p7UzBI/AAAAAAAAAAM/4bxgtbkSGB8/S220/faxul.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3650930.post-79272664</id><published>2002-07-22T14:32:00.000-07:00</published><updated>2002-07-22T14:32:46.206-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;center&gt;&lt;b&gt;Os convidados&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei no meio da noite com um barulho estranho. Pelas frestas da casa via lampejos, brilhos coloridos e o medo tomou-me de assalto. Estaria condenado a viver sempre debaixo das cobertas. Era o fim do mundo? Minha resistência a essa patética teoria apocalíptica ruíra-se ante a esse medo e esse barulho. É possível que eu estivesse diante do infortúnio e  de tão abandonado, paranóico. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levantei-me, fui até a porta. Ao abri-la assustei-me. Tantos monstros ocupavam o meu quintal. As feras, as bestas, ruminantes, morcegos, eu mesmo, espelhos, brinquedos, páginas rasgadas. Ao perceberem minha presença, todos voltaram-se contra mim – falavam ao mesmo tempo. Uma música (a trilha sonora) estranha, com silêncios, metais aumentava a atmosfera desse meu terror exclusivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca poderia detê-los. Talvez fossem eu mesmo em vários momentos de minha vida. Talvez fossem amigos comemorando minha infelicidade e revisões que jamais eu quereria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentei-me numa cadeira. Minha varanda estava suja. Apenas duas criaturas se sentaram ao meu lado. Conversamos pouco. O suficiente para eu saber do que se tratava esse estranho despertar. Tão calmo quanto preocupado tentei sorrir. Não fui condescendente com o próximo a se sentar. Disse apenas que aproveitasse a festa e não se dirigisse a mim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Triste, esse ruminante chorou descompassado, como se fingisse, na ânsia de me comover. Eu estava duro, sem o menor sentimento. Depois que o medo passara, a única coisa que desejava era vê-los se retirarem da minha casa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso não aconteceu. Ainda estão aqui. Os fogos ainda soltos cintilam a atmosfera da minha casa. Espero pacientemente que saiam. Enquanto isso, carrego o meu revólver.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3650930-79272664?l=juliocostello.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/79272664'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/79272664'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://juliocostello.blogspot.com/2002_07_21_archive.html#79272664' title=''/><author><name>Julio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13520190805812693988</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_Ad-Lcst6ziY/SZbk2p7UzBI/AAAAAAAAAAM/4bxgtbkSGB8/S220/faxul.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3650930.post-79223224</id><published>2002-07-21T10:38:00.000-07:00</published><updated>2002-07-21T10:39:20.000-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;center&gt;&lt;b&gt;Feira livre&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um inseto passeia pela feira livre tentando enconder-se das pisadelas dos transeuntes. Sua única esperança é ver Sandra popular, intervir e salvá-lo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sente saudades do seu escritório e da arrogância da secretária que não gostava de trepar. Tudo o que queria era ser enclausurado no banheiro, masturbando-se freneticamente. Seu único álibi era a solidão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todas as horas do dia lhe são cruéis, a começar pela manhã e o trauma habitual de acordar. Lembra-se da infância com pesar, e com muita vergonha. Não gosta muito de falar sobre o passado. E sobre o futuro? Também não. Gosta apenas de ruminar o presente, afinal de contas é um inseto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já percebeu como o inseto só vive o presente - pensa sempre em se alimentar de criaturas minúsculas, vermes e subincetos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma vez perdeu-se lendo a Ilíada - era o carrapato do cavalo de Tróia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Criaturas celestiais&lt;br /&gt;Tenham piedade, esclareçam algo sobre  o futuro do inseto&lt;br /&gt;Desse mundo cheio de pisadelas que o ameaça constantemente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tragam-lhe a redenção, afinal somos todos iguais a ele&lt;br /&gt;Incertos no rumo, certos do labirinto.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3650930-79223224?l=juliocostello.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/79223224'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/79223224'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://juliocostello.blogspot.com/2002_07_21_archive.html#79223224' title=''/><author><name>Julio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13520190805812693988</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_Ad-Lcst6ziY/SZbk2p7UzBI/AAAAAAAAAAM/4bxgtbkSGB8/S220/faxul.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3650930.post-79202585</id><published>2002-07-20T17:47:00.000-07:00</published><updated>2002-07-20T17:52:07.000-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;center&gt;&lt;b&gt;Elen está derretendo (versão completa)&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De todas as esculturas que fiz, Elen é a mais bonita. É formosa, tal qual a Vênus de Milo. E o melhor, não tem gavetas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A figura de Elen está em exposição no museu do Açougue Riomar, bem perto da minha casa. Não é fácil para mim, vê-la atrás de um balcão atendendo clientes mal educados, que nem ao menos reparam na sua beleza. É muito triste vê-la entre postas de carne, sebo e miúdos, cortando-se na faca afiada ao som dos berros do patrão e dos protestos dos fregueses. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o que mais me entristece é vê-la trajando aquele jaleco branco manchado de sangue e salpicos de sangue &lt;br /&gt;em sua face rosada. Elen está derretendo. Não sei como reverter esse processo. Sim, a criei, mas continuo sem saber como curá-la. Ele me disse: “Faz alguma coisa, meu bem, porque ainda amo você.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje a procuro entre carcaças, víceras bovinas sem o menor sucesso, chance de encontrá-la. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os cupins invadiram minha casa. Atacaram a estrutura de madeira que sustentava a minha escultura que logo veio abaixo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encontrei um bilhete ao lado do cadáver de Elen, justificando o suicídio. &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3650930-79202585?l=juliocostello.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/79202585'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/79202585'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://juliocostello.blogspot.com/2002_07_14_archive.html#79202585' title=''/><author><name>Julio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13520190805812693988</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_Ad-Lcst6ziY/SZbk2p7UzBI/AAAAAAAAAAM/4bxgtbkSGB8/S220/faxul.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3650930.post-79202570</id><published>2002-07-20T17:46:00.000-07:00</published><updated>2002-07-20T17:46:54.970-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;center&gt;&lt;b&gt;Posteridade, oito pierrôs &amp; literatura&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembro-me de uma crônica da Clarice Lispector chamada As três experiências que falava sobre a necessidade de escrever. É um texto muito bonito e com aquele humanismo impressionista característico da autora. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outra vez, impressionou-me um trecho de A paixão segundo GH: “Dá-me tua mão: Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de arei por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez ainda não tenha entendido nada do que Clarice escreveu – não fui Clarice o suficiente para entender. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escrever é algo tão estranho, legado por alguma maldição ou por dom supremo, ou mesmo uma droga. Não há prazer. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vaidade? É possível. Pretensão? Certamente. Frustra bastante pensar que mensagem que escreves não será interpretada nem por ti mesmo. Não falo de psicografia, mas de um movimento involuntário de tua essência, daquilo que queres fugir, mas que a folha de papel, a ti exige. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As paixões rondam o universo de quem escreve. É tanto amor que às vezes coagula ao contato com o oxigênio. É tanto ódio que flores murcham a sua presença. Dói o peito. A angústia cresce. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Clarice sabia disso, sentia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez, a grande experiência, para mim, seja estar por aí, a achar-me importante a ponto de levar-me a sério. Vou fingindo que escrevo, vou fingindo que sei muita coisa, a entrar num processo de autofagia infinita, mas como se eu nunca esmorecesse e ficasse gravado em tua cabeça, leitor – em teu coração. &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3650930-79202570?l=juliocostello.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/79202570'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/79202570'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://juliocostello.blogspot.com/2002_07_14_archive.html#79202570' title=''/><author><name>Julio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13520190805812693988</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_Ad-Lcst6ziY/SZbk2p7UzBI/AAAAAAAAAAM/4bxgtbkSGB8/S220/faxul.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3650930.post-79202553</id><published>2002-07-20T17:45:00.000-07:00</published><updated>2002-07-20T17:45:48.186-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;center&gt;&lt;b&gt;Fratura&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;Destruição. Venenos. Varais. Cordas para enforcar. &lt;br /&gt;Ossos partidos, corações também. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As onças do ouro. &lt;br /&gt;O verde dos olhos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Destruição. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maurício destila sua revolta nos versos acima. É um estúpido. Metido a escritorzinho, escrupuloso. Já li muitas histórias escritas por este facínora, e nenhuma delas me agradou. Ele é muito elogiado, mas desconfio que os elogios que colhe são frutos da incapacidade de julgamento por parte dos "críticos" que rondam conqueteis literários ou um pseudo-sarau. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Joguei lama em Maurício. Ele não gosta de mim. Leu algum dos meus textos e disse que eram vagos e pretensiosos. Que filho da puta! Não escreve porra nenhuma e ainda quer depreciar minha literatura. Foda-se canalha! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele tem 5 livros publicados. E aposto que não vendeu 30 exemplares de cada um. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tenho projetos, um deles é a morte de Maurício. Outro a publicação de uma obra que soterre qualquer elogio recebido por aquele desgraçado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Qual dos dois realizo primeiro? &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3650930-79202553?l=juliocostello.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/79202553'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/79202553'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://juliocostello.blogspot.com/2002_07_14_archive.html#79202553' title=''/><author><name>Julio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13520190805812693988</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_Ad-Lcst6ziY/SZbk2p7UzBI/AAAAAAAAAAM/4bxgtbkSGB8/S220/faxul.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3650930.post-79202520</id><published>2002-07-20T17:44:00.001-07:00</published><updated>2002-07-20T17:44:44.293-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;center&gt;&lt;b&gt;Colhendo Flores Para Um Funeral&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todas as manhãs têm sido assim. São chatas, longas e frias. Não suporto mais. Estou colhendo flores para um funeral. Se talvez, me lembrasse de você, mas tenho apenas uma vaga neblina sensual, uma fumaça de sua imagem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É duro me ferir meus dedos nos espinhos destas rosas. Como as odeio. Esse carmesim sórdido. Estas pétalas fartas de orvalho, sinistro, sinistro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cheiro da terra me enjoa, mas estou confinado a viver assim, e nada pode me tirar daqui. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A variedade de cores confunde minha visão, os obtusos instrumentos são pesados e uma fina dor no peito – angina?- ameaça me matar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ontem matei três morcegos que repousavam nas vigas da casa. Fiquei com pena, depois os fritei e comi. A digestão foi difícil – sentia uma enorme raiva – raiva de ter que me alimentar de radares que sempre invejei e agora se dissolviam no meu estômago – logo depois os cagaria. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguns insetos não me agradam. As moscas, insetos dípteros, querem sempre dividir minha comida. Já não bastam minhas fezes? Abelhas são violentas e vingativas – não entendem quando tento roubar os favos de mel e me atacam – umas cinco. Ferrões cravejados nas costas, rosto (pareço um japonês), braços e pernas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia um vizinho me aparece e pergunta: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Quanto cobras por um ramalhete de flores? &lt;br /&gt;— 300 reais. &lt;br /&gt;— O quê? De que são feitas, de ouro? &lt;br /&gt;— Não, são flores, órgãos reprodutores de uma planta, formando um conjunto de cores vivas e brilhantes e, por vezes, de odor agradável. Não achas que 300 reais ainda é pouco? Terei que castrar muitas plantas para teu ramalhete. &lt;br /&gt;— Muito obrigado, enfie tuas flores no cu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei sem palavras. Estava tão cansado neste dia, não fiquei ofendido. Mas se tivesse revidado diria “limpe o rabo com seus 300 reais”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou deixando muita coisa de lado. Você foi a primeira. Meus amigos a segunda. Tentei até me livrar da bebida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada me consola. As cordas do meu violão estão quebradas – não sei tocar mesmo. Capturei vinte e cinco pássaros com uma gaiola improvisada. O filho da puta do gato comeu cinco, mas vinguei-me do canalha, amarrei-o ao pé da mesa e dei tanta chicotada – miava bonito. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui dormir e tive um pesadelo. Sonhava com tigres, leões e outros felinos dilacerando-me e com a rotina de colher mais flores para futuros funerais. &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3650930-79202520?l=juliocostello.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/79202520'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/79202520'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://juliocostello.blogspot.com/2002_07_14_archive.html#79202520' title=''/><author><name>Julio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13520190805812693988</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_Ad-Lcst6ziY/SZbk2p7UzBI/AAAAAAAAAAM/4bxgtbkSGB8/S220/faxul.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3650930.post-79202506</id><published>2002-07-20T17:44:00.000-07:00</published><updated>2002-07-20T17:44:01.623-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;center&gt;&lt;b&gt;Mariana, She Said&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era tristeza, uma manhã triste e feia. Era frio, cinza e Mariana não estava aqui. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O corpanzil onde me fartava está distante. Querido coração. Por que me abandonaste? Sabias que eu não podia caminhar sem o seu sustentáculo. Sabias que não viveria sorrindo apertado, soberbo contra o meu débil estado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora é tudo silêncio. Calmo? Plácido? Não. Atordoante. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Silêncio: passos no corredor. O coração vibra com a expectativa que seja Mariana. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é. O telefone toca. Corro para atendê-lo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É Mariana. Recita-me um poema: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As estrelas estão em coluio &lt;br /&gt;A fazer cópulas celestiais &lt;br /&gt;A esperar que façamos o mesmo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um cometa sinaliza o gozo supremo, &lt;br /&gt;estamos a nos fartar de prazer. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso aquece o meu coração, digo: "Mariana, volta" &lt;br /&gt;Com a resposta a manhã continuou fria, cinza e feia, mas meu coração emitia raios de luz capaz de ensolarar essa paisagem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tinha um sol no meu coração. &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3650930-79202506?l=juliocostello.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/79202506'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/79202506'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://juliocostello.blogspot.com/2002_07_14_archive.html#79202506' title=''/><author><name>Julio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13520190805812693988</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_Ad-Lcst6ziY/SZbk2p7UzBI/AAAAAAAAAAM/4bxgtbkSGB8/S220/faxul.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3650930.post-79202478</id><published>2002-07-20T17:42:00.000-07:00</published><updated>2002-07-20T17:42:43.306-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;center&gt;&lt;b&gt;Quando começamos?&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu ainda era um menino quando descobri coisas que machucam e ferem e costumam atingir a superfície. Coisas que deveriam ter seu devido tempo, mas que de maneira ruidosa mostrou uma face cruel da vida. &lt;br /&gt;Do lugar de onde vim trouxe sapos e lagartos, legumes e desfeitas para construir algo de novo nessa cidade que escolhi. Era um lugar tosco, árido, seco – assim como as almas que secam cálidas de um oásis e se confundem com as visagens. &lt;br /&gt;Como em outros tempos tive que me reerguer construindo meu mundo, a habilidade que não tinha teve que se mostrar. Mas, ainda sim, sem o riso da sorte, moldei tijolos e inventei, de maneira insolente, um escudo protetor de todas as minhas vontades. &lt;br /&gt;Sem perceber elaborei lições complicadas, nem eu mesmo sabia resolvê-las, mas pude aprender com elas que os labirintos, apesar de cruéis, são necessários para melhorar os reflexos, não a reflexão. &lt;br /&gt;Era fim de maio quando conheci minha mulher. Sílvia era o seu nome. Nosso controvertido idílio gerou muitas facções, dividindo as opiniões dos reacionários, conservadores, populistas, comunistas, guerrilheiros e integrantes da orquestra sinfônica de Berlim. &lt;br /&gt;Não ficamos preocupados com as querelas. O que realmente importava era o que sentíamos no momento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sílvia está morta, mas lembro-me de sua imagem, sua placidez ao morrer. Não gemeu muito, minhas mãos estavam firmes no seu pescoço, nem soluçou. Ainda dei-lhe um beijo antes de fugir&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3650930-79202478?l=juliocostello.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/79202478'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/79202478'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://juliocostello.blogspot.com/2002_07_14_archive.html#79202478' title=''/><author><name>Julio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13520190805812693988</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_Ad-Lcst6ziY/SZbk2p7UzBI/AAAAAAAAAAM/4bxgtbkSGB8/S220/faxul.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3650930.post-79202457</id><published>2002-07-20T17:41:00.000-07:00</published><updated>2002-07-20T17:41:56.450-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;center&gt;&lt;b&gt;O Júbilo&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sr. Romualdo, dono do botequim da esquina flagra sua mulher trepando com outro. No momento, enlouquecido, decide matá-los (ambos) a tiros e coronhadas. Foi detido, o que não impediu que fosse ridicularizado pelos companheiros de cela. Irado, retirou a peixeira que escondia amarrada na perna sangrando três companheiros que feneceram em instantes. A guarda alertada sobre os novos homicídios, resolveu isolá-lo de forma especial, como se fosse um “doutor” Romualdo. O mesmo, sacou do canivete que escondia debaixo da axila ferindo mortalmente o guarda que o acompanhava até a nova cela. Como viu boa situação, saiu pelas portas da cadeia, sem que ninguém percebesse de imediato. Três dias depois encontraram morto Zezinho, ajudante de Sr. Romualdo no botequim. Os outros amantes amedrontados, escutando sobressaltados, decidiram fugir pela mata, sendo atacados por cobras, lagartos venenosos e porcos selvagens. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sr. Romualdo, foragido, pôde assim desfrutar da liberdade vingando-se de quem transpusesse o seu caminho - seu leito conjugal: sua alcova devassada pela freguesia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Descansando à sombra de um ipê-roxo, Sr. Romualdo pensou na vida e nas coisas de outrora. Avaliou que quando solteiro não tivera os mesmos infortúnios de casado. Pensava, agora, que talvez pudesse ser mais feliz. Não precisaria ouvir os flatos apoteóticos e os queixumes de sua esposa, que agora descansava em paz no jazigo da família, no cemitério local. Mudaria de cidade, lugar onde ninguém o conhecesse, trabalharia como operário, camelô, mascate, pai-de-santo-de-praça, raizeiro, vendedor de fumos. Não, não apelemos para o lugar-comum, seria cômodo pensar assim. Sr. Romualdo decidiu assaltar o caixa de seu botequim interditado, levando o cartão magnético de um banco qualquer. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dois anos depois, Sr. Romualdo encontra-se instalado na capital. É um próspero comerciante e continua solteiro. Só que existe a Vandinha, que todas as noites vem visitá-lo. Não precisou matar mais ninguém. Encontra-se satisfeito e feliz da vida. Não se arrepende do que fez. &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3650930-79202457?l=juliocostello.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/79202457'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/79202457'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://juliocostello.blogspot.com/2002_07_14_archive.html#79202457' title=''/><author><name>Julio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13520190805812693988</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_Ad-Lcst6ziY/SZbk2p7UzBI/AAAAAAAAAAM/4bxgtbkSGB8/S220/faxul.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3650930.post-79202419</id><published>2002-07-20T17:40:00.000-07:00</published><updated>2002-07-20T17:40:28.960-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;center&gt;&lt;b&gt;O Último Carnaval de Luz&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começo esta narrativa dizendo que odeio carnaval. É por ele e com ele que planejo todo o meu percurso de asco e repulsa. Hoje penso que ele é um martírio fascista que anualmente assola o território brasileiro. A Marquês de Sapucaí é o ápice, o termo da glória mais horripilante desse povo infecto, o cariocabrasileiro. Distribuí bombas à sorte, meticulosamente meti-me em acabar com a festa fazendo de um clichê, uma obra prima da originalidade. É banal tentar convencer-me que tudo o que penso é oco: destruir as arquibancadas, incendiar os salões esmagar os blocos que aterrissam Bahia, Rio, São Paulo - O último carnaval de luz. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1º dia: estudei todo o fevereiro carnaval, as estruturas de todos os palcos e os enchi de explosivos. Posso afirmar que a marquês será incinerada. Aqui onde a terra brota o mais fino halo, ouço suspiro de agonias futuras. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2º dia: digo com alegria que era desfile. As escolas de samba mostravam todo o seu ardor, sua pesquisa - meu amor - esguio e comumente exclusivo dediquei-me a acionar os explosivos. Houve um barulho apocalíptico: vi cabeças de passistas e &lt;br /&gt;porta-bandeiras voando pelo ares, arquibancadas em chamas, corpos seminus correndo de encontro à morte, uma porta bandeira gritava alucinadamente por socorro enquanto a glória de seu estandarte não era nada mais do que um facho de luz, o plasma, fogo, um circo de horrores que Dante jamais ousou divinocomediar. A seguir visitei os salões privados: foram cercados e incendiados por combustível, dinamites explodiram, os confetes e as serpentinas conduziam rapidamente o fogo. Vi muitas putas, cornos e veados derretendo no calor da alegria. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Honremos o carnaval do Brasil. &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3650930-79202419?l=juliocostello.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/79202419'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/79202419'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://juliocostello.blogspot.com/2002_07_14_archive.html#79202419' title=''/><author><name>Julio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13520190805812693988</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_Ad-Lcst6ziY/SZbk2p7UzBI/AAAAAAAAAAM/4bxgtbkSGB8/S220/faxul.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3650930.post-79202401</id><published>2002-07-20T17:39:00.000-07:00</published><updated>2002-07-20T17:48:39.000-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;center&gt;&lt;b&gt;Raquel e os escritos ditados pelos santos&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após despertar de um cansativo sono, Raquel econtrou-se impregnada de um perfume suave que inundava a atmosfera do seu quarto. Um perfume tão sensual que os cães embevecidos uivaram nos arredores de sua casa. Ao levantar-se da cama observou pela janela, uma atmosfera convertida em cores múltiplas, sentiu-se no interior de uma delas, abriu a porta do quarto e deparou-se com um abismo: a casa estava fragmentada, sem comunicação com a outra metade. O grito de Raquel não ecoou no abismo, não conseguiu acordar os pais que dormiam um sono de pedra, não mais existindo. Mirava novamente o olhar pela janela – vertigem - via mil estrelas dançando, um balé cósmico. Dois cometas giravam em sentido oposto um do outro até se chocarem formando cores inimagináveis. Raquel sentia ânsia de vômito. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Descobriu o telefone na cômoda ao lado da cama, chamou novamente os pais, a ligação foi prontamente atendida: vozes descompassadas, o som de um ambiente repleto de convivas bêbados e uma valsa com andamento alterado, nenhuma voz familiar. Não falou com os pais, (nervosa) ao desligar o aparelho, foi surpreendida pelo toque do mesmo: som lúgubre da valsa e a polifonia dos bêbados. Pousou o fone no gancho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Raquel decidiu abrir a janela e grita por socorro. Quando o fez, percebeu um homem fitando-a na calçada. Ela não o reconheceu. Percebeu o sorriso. O desconhecido escalou o muro da casa, e depois, através janela aberta, olhou fixamente para Raquel e como por encantamento, entrou no quarto da moça. Raquel tentou gritar – ele gesticulou um sinal de silêncio - ela compreende e não o faz. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem diz chamar-se Samuel, o santo. Deseja que ela escreva o que ele tem a dizer. Raquel obedece e espera solícita pelas palavras do santo. Existem bombas a serem explodidas na cidade vizinha. Eu as coloquei sem compaixão, se tens amigos ou familiares pode lamentar-se ao amanhecer. Mas porque fizestes isso? Se és santo deveria desarmar bombas. Sou um anjo exterminador e, por favor, escreva meus apontamentos: vi a terra como celeiro abundante de moribundos. Infeliz e cerceando os ossos, impingindo chagas no seio da terra, fingi ser arauto da liberdade. Inconformado com o meu despreparo parto para um trabalho mais sujo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao retirar os olhos da folha de papel onde concluíra a última frase, Raquel mirou o semblante triste dos olhos de Samuel que num piscar de transformou-se em outro homem que dizia chamar-se Carlos. Nem preciso dizer-lhe ao que vim. Continue anotando: sua casa está partida ao meio. Foi obra minha, um belo trabalho. Se sozinha, agora estás, é para que percebas o exílio eterno do universo, a solidão vinda dos astros de outras eras. O meu trabalho consiste em dividir pensamentos, criar dúvidas, assegurar a falta, restringir a liberdade e a harmonia dos ruminantes - como os da vossa casa. Não percebo o porquê de tanta revolta, o espaço é bom e favorável. Se não fosse pela presença de Samuel e Carlos, seria essa a mais bela noite já vivida. Sou agora Rafael. Percebes o perfume que exala de teu corpo, eu transformei o seu suor. Isso a distinguirá de todas. Não sei se será motivo para contendas, tristeza. Tornei-me santo, abdicando todos os prazeres vividos. Os olhos rasos, finalidades d’água. É o fim, revoltas... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Raquel anotou tudo o que os santos falaram. Rafael desapareceu, deixando uma mancha cinza no teto. Raquel adormeceu. Trinta e oito horas depois o dia amanhece. A atmosfera volta ao normal e nenhum vestígio do perfume. A casa continua distante, e ao telefonar para a outra metade, Raquel ouve apenas o ruído da valsa que chega ao fim e os e os riscos do disco de vinil, sem grandes preocupações. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não se lamentou e descobriu que havia um belo argumento para continuar os escritos. &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3650930-79202401?l=juliocostello.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/79202401'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/79202401'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://juliocostello.blogspot.com/2002_07_14_archive.html#79202401' title=''/><author><name>Julio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13520190805812693988</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_Ad-Lcst6ziY/SZbk2p7UzBI/AAAAAAAAAAM/4bxgtbkSGB8/S220/faxul.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3650930.post-79202356</id><published>2002-07-20T17:38:00.000-07:00</published><updated>2002-07-20T17:38:25.303-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Olá meus caros amigos, &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Está será a minha provisória página para a divulgação dos contos que &lt;br /&gt;escrevo. A história abaixo constará de meu primeiro livro, a ser publicado, &lt;br /&gt;A Vida no Exílio Após a Abdicação. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um abraço, &lt;br /&gt;e espero que odeiem ou amem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;center&gt;&lt;b&gt;Calendário&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faz mais de um ano que eu senti saudades, faz mais de um ano que senti muitas coisas, faz mais de um ano que eu sabia alguma coisa, faz mais de um ano que aprendi a viver, faz mais de um ano que não durmo, faz mais de um ano que não sou o mesmo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anos de solidão e juramento. Nunca pensarias em mais nada sobre minha pessoa? Impessoalidade, formalismo. Levas uma vida estrutural e tão doce de cruel? Rose já não mora mais aqui e faz mais de um ano que não sinto sua falta. A escuridão toma todos estes quartos. Com minha lente de infra-vermelhos posso encontrar no escuro o que tinha perdido. Faz mais de um ano que não encontro nada neste quarto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje a noite vemos a lua. Eu e você. Eu no meu cativeiro. Você no seu. Estamos assim unidos por essa mania de querer fazer sentido, sem agradecer o fato de termos evoluídos até o momento. Eu sou comum, uma víbora que localiza suas presas através do calor, igual menino ansioso para olhar debaixo da cama, igual a menina que beija a foto, igual o rato que come as sobras. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vazio. Vazio. Vazio. Configuras o vazio e este vácuo que ensaca minha alma? Alma? Luz bruxuleante, contexto repetitivo de textos intimistas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sejamos diretos: o que que te moves? O que desejas do mundo nos textos? "São meses chorando, sempre ao lado do telefone. Ele não chama. Então discas 109, ele toca repetidas vezes. Olhas para o telefone e insistente declaras sua pouca vontade, esnobismo até em atendê-lo. Não sou quem procuras". Rose pensava assim quando deixou esta casa, estes móveis, deixou todos este motivos. Foi para outro cativeiro. Exilou-se. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A estrelas sabem que não sinto nada. Faz mais de um ano que perdi. Sinto apenas que quero ouvir sons de um quarteto de cordas, vocais etéreos para fazer sentido a estes dias - anestesiado, sem raiva, rusgas e extremos.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3650930-79202356?l=juliocostello.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/79202356'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3650930/posts/default/79202356'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://juliocostello.blogspot.com/2002_07_14_archive.html#79202356' title=''/><author><name>Julio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13520190805812693988</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_Ad-Lcst6ziY/SZbk2p7UzBI/AAAAAAAAAAM/4bxgtbkSGB8/S220/faxul.jpg'/></author></entry></feed>
